domingo, 27 de novembro de 2011

Guest Post: USP, Greve e a Representatividade das Assembleias

Recentemente escrevi um texto, que pode ser lido “aqui”, sobre a questão das assembleias da USP, a ocupação da reitoria da mesma e outras questões. A Letícia, que é uma amiga da USP, aceitou escrever um texto em réplica ao texto escrito por mim. Ele está logo abaixo.

Assim como o Fernando, sou estudante do primeiro ano de Ciências Sociais na USP. Também sou aluna do 9º semestre de Direito no Mackenzie, e vim aqui a convite do para expor minhas idéias acerca das assembléias, ocupação da reitoria etc. pelo fato de nós discordarmos em inúmeros aspectos em relação ao que vem acontecendo na USP. Muito democrático da parte do , a quem agradeço por abrir este espaço para uma opinião divergente.

Sem mais delongas, gostaria de começar pela representatividade – ou não – das assembléias gerais que vêm ocorrendo semanalmente. Para o as assembléias não representam os anseios de toda a universidade. De fato, em que pese cada vez mais cursos venham aderindo ao movimento, se pensarmos na totalidade dos cursos do campus, não há uma participação maciça nas assembléias. Como exemplo, dos cursos da FEA – que tradicionalmente não aderem a movimentos grevistas -, ou ainda da POLI. Interesses divergentes? Sim. Mas não acredito que estas divergências se encontrem apenas no debate acerca da presença da PM dentro do campus, ela vai muito além.

 Conforme o sociólogo Luis Antônio Groppo*, doutor pela Unicamp,

Luis Antônio Groppo
“(...) parte importante dos estudantes que invadiram reitorias de universidades estaduais de São Paulo e federais país afora, em uma breve leitura dos acontecimentos, pertenciam a cursos das Ciências Humanas, menos prestigiados e em crescente precarização, de jovens oriundos de camadas sociais mais distantes das elites socioeconômicas e que ocuparão provavelmente postos de trabalho menos prestigiosos e menos bem pagos, tais quais a docência no ensino fundamental.”


Ele atribui a escassa participação política dos jovens a fatores socioeconômicos, devidos aos quaisos jovens das classes populares e médias são empurrados antes a pensar no seu próprio presente e futuro próximo, inclusive em questões como sobrevivência”. Groppo aponta ainda que a militância vem sendo substituída pelo voluntariado, considerado atualmente importante requisito profissional para o mercado de trabalho, bem como que a família e a religião, que tendem ao particularismo e ao conservadorismo, são as principais instituições de referência aos jovens, de acordo com pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo.

Diante disto eu questiono: é somente devido à falta de espaço ou receio de alguma hostilização o fato de não haver uma maior participação nas assembléias? Ou será queum desinteresse geral pelo debate político dentro - e fora - da Universidade? Esta última é a conclusão a que tenho chegado.

A greve geral foi deliberada em assembléia geral realizada na FFLCH, em 08 de novembro, e ratificada na assembléia geral realizada em 17 de novembro, na FAU, por ampla maioria (lembrando que eram cerca de 3 mil estudantes). Nãoque se falar em ilegitimidade da mesma. Se não vem sendo respeitada por todos os cursos, atribuo este fato a dois motivos especiais: I) ao desinteresse na participação do debate político por parte dos alunos, ponto abordado acima e II) a ADUSP – Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, não ter deliberado pela greve dos professores, apesar de apoiar as reivindicações.

É claro que o fato dos professores não terem entrado em greve acaba por enfraquecer a decisão tomada na assembléia estudantil, pois os alunos que estão mais interessados em terminar o semestre, entrar de férias, e não querem se envolver no debate político, vão comparecer às aulas, desrespeitando a decisão da assembléia de estudantes. E aqui não há nenhuma crítica, ao menos diretamente, àqueles que permanecem alheios ao debate. Ocorre que quando você se exime de participar, de votar, alguém vai tomar uma decisão por você, e é por isso que vislumbramos contradições (deliberação a favor da greve geral por ampla maioria em assembléia x alunos querendo aula).

Foi o que aconteceu, aliás, na assembléia das Ciências Sociais que deliberou pela retirada das cadeiras das salas de aula. A decisão ganhou por uma diferença, se não me engano, de três votos. Eu fui desfavorável à retirada das cadeiras, e foram muitos os descontentes com essa decisão. Mas entre estes, nem todos estavam na assembléia que aprovou a decisão, legitimamente, por uma apertada maioria.

um questionamento acerca da ausência de espaço para opiniões divergentes dentro das assembléias, o que fundamentaria o desinteresse na participação em assembléias pelos alunos. O Fernando apontou a presença de “tapas, empurrões e até latas com cerveja”, o que me pareceu exagerado, pois venho participando das assembléias e fiquei sabendo de um caso em que se atirou uma lata de cerveja em um aluno que se absteve em uma votação. De qualquer forma, estes atos, obviamente, devem ser repudiados. Entretanto, a meu ver, simples vaias devem ser encaradas assim como aplausos, ou seja, forma de manifestação, que deve ser livre.

Quanto à partidarização do movimento estudantil, isto não elimina o descontentamento dos estudantes em geral em relação ao que vem ocorrendo no campus. Vou me valer mais uma vez das palavras de Groppo:

“(...) há várias manifestações de descontentamento estudantil, como em diversas ocupações de reitorias nos últimos anos. Ainda que não se deva desprezar a denúncia de que houve certa manipulação por grupamentos da ‘extrema esquerdadissidentes da UNE, esta cooptação, tentada e talvez em parte conseguida, não deve ocultar a insatisfação de parte importante dos estudantes que participaram das invasões”.

Podemos ainda lembrar de Rousseau, quando fala acerca da vontade geral versus as facções: “quando uma dessas associações é tão grande que sobrepuja todas as demais (...) nãovontade geral, e a opinião vencedora não passa de uma opinião particular” **. Não acho que exista um grupo tão forte e homogêneo no movimento estudantil da USP que tenha esse poder, de se sobrepor à vontade comum dos estudantes, e percebemos isso nas próprias assembléias, em questões que são aprovadas, por exemplo, por uma maioria apertada. Ou seja, há muita divergência e debates sim nas assembléias! A solução apresentada pelo próprio Rousseau, acerca das facções é: “em havendo sociedades parciais, impõe-se multiplicar-lhes o número a fim de impedir desigualdade entre elas”. Quanto mais debate, mais grupos divergindo, melhor para se chegar ao interesse comum! E é por isso tão importante a participação nas assembléias, pelos contrários ou não às greves, pelos contrários ou não à PM no campus, ao reitor etc.

Certamenteainda muito que se falar, tal como sobre a ilegitimidade da ocupação da reitoria, questão que, para mim, está ultrapassada, e ainda sobre a possibilidade de um plebiscito, mas percebo que me alonguei.

Sim, é um debate interminável, e o importante é isso, que se debata! Por isso agradeço mais uma vez pelo convite , e parabéns pelo seu blog!

Leticia G. Garducci

**  ROUSSEAU, Jean-Jacques, 1712-1778. O contrato social - tradução Antônio de Pádua Danesi – 3ª ed. – São Paulo : Martins Fontes, 1996. p. 38
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

USP - Sobre as assembleias, a ocupação da reitoria e outras questões

Discordo quando dizem que as assembleias que ocorrem na USP representam os anseios de toda a universidade. Acredito que esteja longe de alcançar isso. As assembleias são importantes, claro, mas, nos moldes atuais, elas não possuem muita credibilidade. Um ótimo exemplo é o fato de a maior parte da USP simplesmente não ter acatado a greve geral convocada em 08 Novembro.
É um ato de extremo reducionismo dizer que quem não participou das assembleias ou não encaminhou propostas é inerte. A verdade é que nessas assembleias existe uma concentração de alunos com tendências políticas bastante homogêneas, uma extensa partidarização (PSOL, PSTU, PCO etc.) e, além disso, grupos que se organizam de forma a impedir (com vaias ou hostilização) que outros pensamentos ou propostas sejam discutidos. Na primeira assembleia teve tapas, empurrões e até latas com cerveja foram atiradas em colegas que queriam expor opiniões divergentes.

Também não podemos esquecer que a ocupação da reitoria não foi legítima. Os alunos (e eu estava entre eles) votaram pela não ocupação, mas, mesmo assim e deixando de lado quaisquer princípios democráticos, eles - a ala mais radical e supostamente revolucionária - simplesmente invadiram/ocuparam. Para mim o termo ocupar é um eufemismo nesse contexto.
É mais do que evidente que a mídia retrata os alunos da USP de forma extremamente estereotipada e não expõe de forma adequada as suas propostas e ideias, mas, ainda assim, esses mesmos "revolucionários" não são assim tão altruístas como se querem fazer parecer. Existem questões (ligadas principalmente aos sindicatos ali presentes) que dão uma perspectiva um pouco diferente do comportamento desses alunos.

E, para esclarecer, acredito que a ocupação é sim uma forma válida de revolta, reivindicação e pressão e concordo com muitas que já foram realizadas antes, na USP ou em outros locais, mas essa última que ocorreu já nasceu equivocada e sem o apoio dos próprios alunos presentes na assembleia.

Voltando para a questão da greve, vale também lembrar que a liberdade individual de muitos  alunos interessados em assistir as aulas está sendo cerceada e deliberadamente desrespeitada. Na Letras alunos foram impedidos, em alguns momentos, de entrarem no prédio. Já no prédio do curso de Ciências Sociais, por exemplo, as cadeiras foram retiradas das salas. Lembrando que os professores se reuniram e decidiram NÃO participar da greve convocada pelos alunos.

Também não podemos esquecer de um fator muito importante e que é ignorado pela esmagadora maioria dos alunos que convocaram a greve: realização de plebiscito. Muitos já pediram a realização de plebiscito, incluindo CAs (Centros Acadêmicos), como o da POLI, e, no entanto, isso foi deixado de lado. Alguns chegaram a dizer que o plebiscito não representa o tipo de democracia ideal para a universidade. Pura estupidez. Democracia é democracia. Para as questões chaves, como a presença ou não da PM no campus, ou mesmo na questão da greve geral, um plebiscito deveria ser convocado e, após período de debates, votado.
Acho que não preciso dizer o motivo pelo qual o tema “plebiscito” é forçosamente deixado de lado e menosprezado por alguns que se dizem democráticos e interessados na real representação de toda a universidade.

Em suma, a intenção com esse post era relatar a minha visão particular de parte dos eventos ocorridos na USP e expressar meu descontentamento; as assembleias não são representativas, muitas decisões são arbitrárias e muito do que se diz em nome de todos os alunos na verdade diz respeito ao consenso de uma minoria.

Confira a réplica da Leticia G. Garducci:

*Todas as fotos do post foram tiradas por mim. Acho que isso fica evidente pela falta de habilidade com a câmera do celular.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Perigo da Idealização

Fotografia de artigo no jornal O Kula
Recentemente escrevi um texto que não tinha a intenção de postar aqui. Era uma crítica a dois textos que foram publicados pelo jornal “O Kula” (jornal do Centro Acadêmico do curso de Ciências Sociais da USP), escrito por estudantes do curso de Ciências Sociais. O que me incomodava nesses textos era o fato de um idealizar a imagem do Lula e retratá-lo como o salvador da pátria e o outro referir-se ao capitalismo como sistema “indefensável” sem ao menos explicar o motivo.

Acontece que no sábado me deparei acidentalmente com o máximo da idealização numa exposição que homenageava o Lula. O problema não está na exposição, que era linda, com fotos realmente fantásticas. O problema também não está na homenagem em si. O grande problema (e perigo) estava no texto do antropólogo Antonio Risério, que precedia a entrada na exposição de fotos

Trecho:

“Homo Brasilis”. Se existisse esta categoria antropológica, ela viria a calhar, numa definição do nosso Luiz Inácio Lula da Silva. (Antônio Risério)

Antônio Risério

Abaixo  está o texto que escrevi para o jornal O Kula como réplica aos outros dois já citados.

Esquerda Radical - Vazio e Idealização

Existe e predomina na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP) uma chamada “Esquerda Radical” que pelo simples fato de ser radical não está aberta ao diálogo. Como qualquer movimento social moderno, diz-se tolerante e reflexivo, mas na prática demonstra uma face de dogmatismo. E o termo “dogma” se encaixa perfeitamente ao comportamento de muitos que se autodenominam radicais.

A esquerda juvenil que gasta sua voz berrando “Companheiros” e “Camaradas” apenas debate entre si e esconde por baixo de sua imagem caricatural uma ausência de argumentos sólidos e aplicáveis.
Na Edição #2 do Kula isso ficou bastante evidente em dois textos. Um que idealizava o ex-presidente Lula e retratava o próprio posicionamento político como anseio do povo brasileiro. Não havia discussão ou dúvidas, apenas conclusões. Falou-se em “fortalecimento dos setores democráticos” no governo Lula, mas nenhum foi citado. Falou-se também em “setores golpistas”, sem discorrer nem por uma única linha quais setores seriam estes. Ficou então no ar a também caricata figura imaginária de uma direita má e imperialista que trabalha arduamente para prevalecer sobre os demais. Maior maniqueísmo impossível.

Em outro texto, no qual havia um posicionamento contrário às disciplinas “Fundamentos de Economia para as Ciências Sociais” (oferecida pela FEA) e “Noções de Estatística” (oferecida pelo IME), bradou-se ainda acerca de um determinado sistema que seria indefensável: o vigente. Mas como é típico dos radicais, nada foi explicado, como se fosse um fato indiscutível.

Quando tudo está muito certo, quando uma “verdade” está lapidada, em geral há algo errado. Se uma voz se diz a própria “verdade”, em geral há algo errado. Quando figuras humanas surgem tais quais deuses a serem venerados, em geral há algo errado. E se há algo que a história nos mostra é que a idealização de conceitos e de pessoas dificilmente gera resultados positivos.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ser Homem - O Homem hoje

Há algumas décadas, ao menos no mundo ocidental, a noção do "ser homem" era relativamente simples, mas com a emancipação feminina e com diversas mudanças de paradigmas isso se tornou algo mais complexo. Existe atualmente uma confusão compreensível nesse sentido. Mas antes de abordar esse assunto é necessário e importante aprofundar-se um pouco mais nessa questão da distinção entre homem e mulher. Distinção comportamental, obviamente.



Margaret Mead
Recorrerei, então, à exímia antropóloga Margaret Mead (1901 -1978). Mead foi uma das grandes alunas de Franz Boas e é tida como uma das grandes figuras da história da antropologia. Militante pelos direitos das mulheres e do movimento de libertação feminina, ela lutou durante toda sua vida por esta causa. Em seu livro “Sexo e Temperamento” (1935), escrito após um árduo trabalho de campo com três culturas da Nova Guiné, Mead coloca em xeque a visão que se tinha acerca do "papel” do homem e da mulher.

A tendência predominante era a de que a biologia determinava o comportamento e, portanto, o homem “naturalmente” agiria de uma forma e a mulher, de outra. O que essas culturas da Nova Guiné deixaram evidente é que não é exatamente assim. Trata-se de algo muito mais cultural do que biológico.

Abaixo uma breve descrição dessas culturas:


·         Arapesh: homens e mulheres são bastante semelhantes (em comportamento) e ambos possuem temperamento pacífico;

·         Mundugumor: homens e mulheres com temperamento oposto ao do povo anterior;

·         Tchambuli: ocorre uma inversão de papéis se comparado com o comportamento padrão ocidental da primeira metade do séc.XX. Enquanto as mulheres trabalhavam e se mostravam mais práticas, os homens agiam de forma oposta, ficando em casa e cuidando das crianças.

Feita essa introdução, posso ir para o tema central: o homem na atualidade.

Claro que aquela imagem padrão do “macho alfa” ainda persiste e o termo “o homem da casa” não deixou de ser comum, embora o peso não seja mais o mesmo. O modo de andar, de olhar, de falar, de se vestir e até mesmo os gostos musicais e predileções para filmes e culinária eram padronizados e qualquer homem que se afastasse muito desse modelo passava a ter sua masculinidade ou capacidade como macho alfa sob suspeita.
Ainda hoje todos esses preceitos existem, mas de uma forma muito menos intensa e comumente confusa. Não se sabe mais ao certo o que é “ser homem”. Para alguns ser homem é falar grosso e fazer sexo com muitas mulheres, para outros é ser autônomo e possuir capacidade de liderança, e para os mais rústicos é o simples fato de não fazer uma determinada lista de coisas e não se comportar de certas maneiras: não gostar de sobremesa, não depilar nenhuma parte do corpo, jamais chorar, não falar sobre os próprios sentimentos, não usar sabão líquido, não lixar as unhas, não saber cozinhar nada além de macarrão instantâneo etc.

Ocorre que o muro de concreto que outrora separou feminino de masculino hoje nada mais é do que uma mera cortina de seda. Exclusividades masculinas tais quais votar, trabalhar em determinadas atividades, praticar certos esportes e agir de determinadas maneiras simplesmente deixaram de existir. Não vou detalhar tudo para evitar que o texto se torne prolixo.

Se antes o sentido de “ser/existir” do homem era trabalhar e prover a família, enquanto a mulher ficava em casa cuidando das crianças e dos afazeres domésticos, hoje essas atribuições específicas de gênero esvaíram-se.
O homem hoje é menos estereotipado e ocorre o mesmo com a mulher. Mas enquanto que a mulher desfruta de mais liberdade e menos tabus (embora ainda haja muito pelo o que lutar), muitos homens caem na confusão da “identidade macho”. Enquanto alguns aceitam bem essa nova situação, outros se sentem perdidos. Ocorre tanto com os jovens como com os mais velhos. Alguns dizem que é tudo consequência da emancipação feminina (que a meu ver ainda está ocorrendo) e das lutas diversas por liberdade, como o movimento LGBT.

Independente da causa, o fato é que o mundo mudou. Mesmo que ainda exista muito machismo e conservadorismo, é inegável que a realidade do séc. XXI (no contexto ocidental e parte do oriental) é bastante peculiar se comparada com a dos séculos anteriores.

Quero concluir deixando um vídeo, traduzido por mim (a tradução não é das melhores), que julgo bastante pertinente para o tema aqui tratado:
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domingo, 31 de julho de 2011

O Negro na Mídia - Limitação e Estereotipação

Os negros, da mesma forma que os brancos e demais etnias, são dotados de suas particularidades. Não particularidades comportamentais exclusivas dos negros, mas sim particularidades típicas dos seres humanos. Quando digo particularidades, refiro-me física e mentalmente.Dois caucasianos não são iguais nem em físico e muito menos em comportamento e por mais que existam semelhanças, cada um possui sua própria personalidade e identidade. Com os negros não é diferente.


Perceba-se, no entanto, que no mundo da mídia (novelas, filmes, séries e publicidade em geral) há apenas algumas poucas figuras que representam, em físico e em comportamento, o homem negro e a mulher negra. Não é um fenômeno exclusivo do Brasil. 




O negro na mídia, principalmente na publicidade, é retratado em imagem sempre das mesmas formas: socialmente carente, trabalhador braçal, malandro ou atleta. Também é engraçado perceber que o cabelo  do negro na mídia possui apenas três variações: black power, ou com trancinhas ou curto quase raspado. Fora desses padrões o negro homem sempre é mostrado de cabeça raspada. Alguns podem argumentar que essas são as únicas opções possíveis, mas dizer isso só revelaria ignorância quanto ao visual do negro no cotidiano. Que visual é esse? Não existe um padrão, simples assim.


No dia em que todos os negros resolverem sair de casa com cabeça raspada, com trancinhas ou com black power, esse será um dia verdadeiramente memorável.

É interessante que a participação do negro na mídia tenha aumentado consideravelmente no decorrer das últimas décadas, principalmente a partir de 1988, quando a nova Constituição passou a enxergar o racismo como crime. Ainda assim a participação do negro é superficial e, pior, estereotipada.



Não podemos esquecer, é claro, do retrato que a mídia estadunidense faz dos seus negros. Eles sempre aparecem de forma extremamente afetada, caricata e em geral fazendo bobagens. Temos uma infinidade de filmes do tipo “Policial Branco Sério junto com Negro Tonto”, nos quais o negro passa o filme gritando, se estrepando e tentando, desesperadamente, nos fazer rir. Chris Tucker, Eddie Murphy e Martin Lawrence são os melhores exemplos de tudo isso. Já Will Smith, Denzel Washington e alguns outros atores parecem ter conseguido fugir desse estereótipo, embora vez ou outra os encarnem em algum filme.



Chris Tucker
Voltando ao Brasil, cabe ressaltar que o cenário atual no qual o negro possui “visibilidade” é um espaço que só faz perpetuar preconceitos e estigmas. É difícil fazer um prognóstico dessa situação, mas ao que tudo indica ela não tende a melhorar tão cedo. A cada ano que passa novas camadas de racismo mascarado envolvem essa redoma de desrespeito ao negro como humano.




Concluo deixando duas recomendações de leitura que considero bastante pertinentes:
* Presença do negro na mídia é marcada pelo preconceito
* Propaganda ainda usa os negros como estereótipos negativos


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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Guest Post: Impostos altos são necessários?

Conversando sobre economia com um amigo surgiu a questão da tributação. Como ele, Diego Rodrigues, é um estudante de Economia, na FEA, aproveitei pra fazer a seguinte pergunta:

* Os nossos altíssimos impostos são realmente necessários ou são apenas uma bengala utilizada devido à falta de capacidade, planejamento e administração do nosso governo?

Abaixo está a resposta:

Os nossos impostos altíssimos ao contrário não são nem um pouco necessários; claro que isso depende se o bem e/ou serviço estudado apresentam demanda e oferta elástica ou inelástica. Mas isso não vem ao caso. O problema é que quando o governo cria um imposto há também a criação do chamado peso morto, quem bem em tese se refere ao valor que um determinado setor da economia deixa de ganhar.

Por exemplo, se eu coloco imposto muito alto nos sorvetes as pessoas irão procurar outras fontes para substituir o sorvete, no caso suponhamos que as pessoas irão passar a consumir geladinhos. Como muitas pessoas irão consumir geladinhos por causa do alto preço dos sorvetes, algumas empresas de sorvetes irão fechar e/ou ir para outro ramo da economia, como de fato ocorre de muitas empresas fecharem e/ou irem para outro ramo da economia. Com isso o país perde um determinado valor e a isso damos o nome de peso morto.

Nesta questão temos exemplo de um bem que possui demanda elástica, ou seja, uma pequena variação no preço faz com que a quantidade vendida desse bem varie muito. Isso ocorre com os bens e /ou serviços que não são essenciais ou que tenham substitutos próximos, como a Coca Cola, Pepsi e bens supérfluos. O cigarro, por exemplo, possui taxação de 450% e esse alto imposto sobre o cigarro foi feito de certa forma até inteligente pelo governo, pois ele - o governo - pode arrecadar bastante carga tributária , já que o cigarro é um bem de demanda inelástica, ou seja, a pessoa que fuma não deixará de consumir o produto se houver variação no preço pois esses consumidores, na maioria dos casos, são viciados.

Já no caso do Ipad o governo está cobrando uma carga tributária alta para, em tese, proteger a indústria nacional, principalmente no que se refere às empresas de computadores portáteis, mas entra também a questão de que no Brasil não existe um imposto unificado.

Existe um imposto federal (cofins), estadual (icms) e municipal (ipi) o que acaba encarecendo ainda mais o preço dos produtos. Se existisse um imposto unificado o preço dos produtos seria menor e isso acontece em muitos países; inclusive, aqui no Brasil, existem propostas de reformas tributárias que são a favor dessa unificação dos impostos.
Na Suécia o valor dos impostos é de 54% da renda total produzida no país, mas lá as pessoas não tem que ter o fardo que nós temos aqui com gastos com saúde e educação. No Brasil os impostos representam 34 % do nosso PIB, mas quando esse valor alto foi criado, a intenção era que acontecesse algo semelhante ao que ocorre na Suécia.  Mas como no Brasil as coisas acontecem de forma muito lenta, isso acabou por se perpetuar até os tempos de hoje.

Os impostos elevados não são necessários para manter a máquina estatal em funcionamento.  Isso depende de país para país. No caso do Brasil, como foi citado e explicado acima, todo esse processo que envolve tributação ocorre de forma precária e, muitas vezes, desorganizada.
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terça-feira, 5 de julho de 2011

Acreditar não é uma escolha

Nós possuímos menos controle do que julgamos.
Acreditar ou não em algo não é uma decisão, independente do que se trate.
Parece bastante óbvio e, talvez exatamente por causa disso, muitos simplesmente ignorem. É muito comum ouvir discursos de ateus ou de teístas falando sobre “opções” de crenças. Isso não existe.


Uma ideia, crença, ideologia etc. pode ser forçada, pode ser embutida na mente de uma criança em desenvolvimento, por exemplo, mas não pode ser acreditada como se fosse um produto disponível numa loja a ser apontado e comprado. Se você disser a um louco para acreditar em algo, talvez ele consiga fazer isso, mas se trataria de uma grande ressalva.
 
Os caminhos que nos levam a adotar uma religião ou desacreditá-la fazem parte de um mecanismo muito mais complexo do que o simples ato de decisão. Um ateu pode não acreditar em fantasmas pelo fato de sua racionalidade o impedir de aceitar algo que para ele é ilógico. Não está nas mãos dele acreditar ou não nisso. Pode ler milhares de livros sobre o assunto e passar meses assistindo filmes sobre espíritos e ainda assim, mesmo que queira, não conseguirá reverter sua descrença.
 
Claro que um ateu pode tornar-se teísta e vice-versa, mas isso não é uma escolha. Pode até ser uma busca, mas nunca uma escolha. Sei que além de estar discutindo algo óbvio, ainda por cima estou sendo repetitivo, mas é bom ser enfático.
 
Algo sério que cabe aqui nesse tema é a questão da “lavagem cerebral”, independente do tipo. Mesmo que não esteja nas mãos de um indivíduo decidir no que vai acreditar, isso não o impede de, por conta própria, chegar as suas próprias conclusões. Concluir (individualmente, é claro) que céu e inferno não existem não é a mesma coisa que decidir, para que fique claro.

Acontece que maioria das pessoas não recebe essa oportunidade e já crescem tais quais robôs, sendo programadas. Nada as impede de formar um senso crítico mais tarde e questionar toda essa bagagem herdada de seus pais (ou quem quer que seja), mas é muito mais difícil.
 
Por isso que figuras como Richard Dawkins condenam que crianças sejam levadas para a religião, pois de acordo com ele e muitos outros intelectuais isso tira o direito da criança de desenvolver sua personalidade e conceitos por si só ou analisá-los de forma menos tendenciosa.

Já ouvi de amigos que não passar para o filho a própria crença é o mesmo que delegar isso para outros. Será?
Será que mesmo sendo bombardeada por diversos pontos de vista uma pessoa não consegue, durante o seu desenvolvimento, avaliar por si própria e filtrar o que considera menos verossímil? Somos apenas reflexos de nossos pais ou de nossa criação? Somos apenas um amontoado de características absorvidas do resto da sociedade? Existe algum individualismo?


A primeira imagem foi retirada do filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange - 1971), no qual o protagonista sofre uma série de tentativas de lavagem cerebral para que seu comportamento seja alterado.
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segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Capitalismo é melhor


Adendo em 26/02/2015

Caros leitores, quando escrevi esse texto eu ainda era um jovem e pretensioso padawan. Meus conhecimentos do tema tratado eram muito mais superficiais e vazios do que minha arrogância poderia supor.

Hoje a minha compreensão não é muito mais profunda, mas minhas opiniões são consideravelmente opostas e - gosto de acreditar - um pouco mais embasadas. Ainda assim, não tenho coragem de escrever outro texto sobre o assunto, justamente por me faltar estudo e bagagem, coisa que não consegui perceber na época.

Então fiquem à vontade para ler o texto, mas espero que possuam um bom filtro para bobagens e argumentos falhos.

Obs. Não, não estou dizendo que o comunismo é melhor, ou que x ou y é melhor. 

Boa leitura!


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Criticar e demonizar o capitalismo se tornou para muitos um exercício diário. Gostar do capitalismo é ser concentrador de renda, malvado, insensível. É tirar o sorvete da menina, bater na velhinha ou matar de fome as pobres e famintas crianças africanas.

A palavra maniqueísmo é a que melhor representa 99% das discussões sobre o assunto.  “Capitalismo malvado!”, “Capitalismo Tirano!”, “Imperialismo!”. Tente ir contra e logo será chamado de Fascista Nojento ou Puxa-saco dos Estados Unidos. Se você for pobre então e mesmo assim não acha que o Capitalismo é a reencarnação de Judas, automaticamente se torna um traidor do movimento ou um pobre iludido, sem personalidade.

As correntes mais comuns atualmente são as pró-comunismo. Diga que nenhum sistema baseado no comunismo deu certo e logo dirão que não aplicaram a coisa direito. União Soviética? Nhá! Stalin estragou tudo... Cuba? Cuba é um paraíso tropical, que isso... China? Ela abriu as pernas pro Tio Sam...
 
Muitos propõem a migração para outro sistema, mas complicado mesmo é apontar para qual. Do jeito que alguns falam, até parece que é só trocar Windows por Linux. A verdade é que o comunismo teve sua vez e se mostrou ineficaz. Os exemplos remanescentes são de dar pena...
 
Ao invés de sair por aí gritando e exigindo um mundo melhor, com nuvens de algodão doce e rios feitos de Nescau, considero muito mais produtivo discutir reformas. A história da humanidade mostra que revoluções no âmbito das economias tendem a ser, mais do que qualquer outra coisa, desastrosas. Claro que também há aqueles, um pouco mais moderados (ou menos radicais) que falam de uma revolução gradativa. Não sei se isso existe... Mas a questão aqui é que acredito piamente que o sistema vigente é melhor do que qualquer outro que já tenha sido tentado, levanto em conta, obviamente, o nosso contexto. Ele possui inúmeras falhas, sim, mas nada é perfeito.
 

Nesse ponto sou obrigado a concordar com as seguintes frases de Winston Churchill:
 
"O vício inerente ao capitalismo é a distribuição desigual de benesses; o do socialismo é a distribuição por igual das misérias."

"A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos".
 
Voltemos então às reformas: não precisamos nos acomodar com os males do capitalismo, com suas falhas, e deixar por isso mesmo. E, aliás, não deixamos. Reformas é o que mais fazemos, exatamente por não se tratar de um modelo estático e imutável. Desde 1929, data da maior crise econômica já vista, inúmeras reformas foram adotadas. E estamos aí, firmes e fortes, e olha que Estados Unidos e Europa ainda não se recuperaram da crise que teve seu início em 2008, o que parece uma ironia, considerando o que eu acabei de dizer. Aí está outra diferença fundamental entre Capitalismo e Socialismo. 

O modelo atualmente predominante passa por essas crises e sai delas fortalecido e aprimorado. No Socialismo qualquer leve intempérie era motivo para o fim do mundo. Não podemos nos esquecer de que já passamos por algo em torno de 46 grandes crises e que cada uma delas resultou no aprimoramento do sistema ou ao menos numa adaptação necessária apara a superação da crise.

Ou seja, o capitalismo e a democracia se adaptam e se fortalecem, enquanto o comunismo, quando sofre um tremor, desfragmenta-se.
"Nunca houve tanta miséria como agora!" Mentira! Proporcionalmente falando a miséria, a expectativa de vida, a participação social e demais aspectos melhoraram imensamente. Não faz sentido analisar a partir de um raciocínio unicamente quantitativo. Seis décadas atrás aproximadamente três bilhões (um pouco menos) de pessoas andavam sobre a terra, hoje, quase sete bilhões. Os números mudaram e poderíamos dizer que hoje mais pessoas morrem em comparação com o ano de1950, mas afirmar isso desconsiderando a alteração na quantidade de habitantes seria um ato de parcialidade manipulativa e leviana. Proporcionalmente falando, hoje a miséria é muito menor do que era antes.
 
Em suma, o capitalismo é melhor ou pelo menos mais eficiente, pragmaticamente falando, considerando o momento histórico em que vivemos. Por mais conservador que possa parecer, essa é a verdade. As mentes mais românticas e idealizadoras tendem a discordar. Nada mais compreensível. Não precisamos e não devemos nos submeter a tudo a que nos impõe, não precisamos aceitar tudo de cabeça baixa, mas, por favor, sejamos mais racionais e críticos.
O Capitalismo está morto - Será?
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