sábado, 7 de maio de 2011

Crianças Drogadas – Fechem os Olhos

Virada Cultural, 17 de Abril de 2011. Enquanto todos aguardavam pelo início da apresentação que ocorreria na arena de luta livre improvisada, uma segunda “atração” espantava os que ali estavam. Três crianças: um menino de aproximadamente sete anos fumando, outro de aproximadamente nove fazendo o mesmo e uma menina com no máximo doze anos cheirando cola.

Vejam... Crianças se drogando, principalmente no Centro de São Paulo, não é nenhuma novidade; já se tornou uma visão comum e que dificilmente gera espanto. Inconformidade sim, espanto não. Mas a questão ali, naquela manhã de domingo da Virada Cultural, era o forte choque e contraste de realidades. De um lado, crianças maltrapilhas e abandonadas a um destino desolador e, do outro, crianças de classe média ao lado de seus pais e que não sobreviveriam meia semana distante de suas famílias.

Para elas - crianças comuns -, entretenimento e divertimento. Palhaços animando-as enquanto o show não começava. Para as outras, ali na extremidade oposta, indiferença.

Um dos responsáveis pelo evento disse com asco na voz: “As pessoas estão horrorizadas!”. Logo percebi que o asco se devia não pela reação (diga-se de passagem, silenciosa) das pessoas, mas sim direcionado àquelas tão prematuras vítimas da desigualdade. A solução foi rápida, simples e previsível: “Tirem elas dali!” – disse o homem.

Um guarda se aproximou e deu o ultimato. Os garotos distanciaram-se rapidamente da arena. Não apenas da arena, mas também do alívio que poderiam vir a ter, por uma fração de segundo, do mundo ao qual estavam jogados, ao assistir o evento que logo começaria. Tais quais os meninos do livro Capitães da Areia ao brincar no Carrossel, porém, sem a idealização de Jorge Amado.

A menina, com esforço e cambaleando, lentamente foi-se afastando também. Logo os olhos dos cidadãos estavam livres daquela dolorosa imagem. E como se nada tivesse acontecido o evento teve início.

Veio à minha mente aquela máxima já clicherizada:
“O que os olhos não veem o coração não sente”.

Capitães da Areia - Jorge Amado

Virada Cultural - 2011


2 comentários:

  1. De que adianta tirarem elas de lá, se elas vão continuar fazendo o que estavam fazendo.
    Depois ainda reclamam do quanto marginal tem nas ruas, Obvio, quando elas eram crianças apenas mandaram ela sair, sem ao menos tentar ajuda-las.

    Drika.

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  2. Não tiraram de lá as crianças pelas crianças, mas por eles mesmos, para continuarem cómodos e distraídos, varrendo para o debaixo do tapete.

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