domingo, 19 de junho de 2011

Incesto - Repúdio Natural ou Cultural?

Quantas relações incestuosas existem mundo afora? Não existem estatísticas sobre essa questão, embora saibamos que ocorre. A reação comum é sentir asco tão logo o pensamento é colocado em nossa mente, como agora. Por que sentimos nojo? Por que tendemos a condenar? Por que praticamente todos nós somos incapazes de nutrir por nossos irmãos e pais quaisquer desejos sexuais? É algo natural e instintivo ou construído e cultural? Alguns dizem que os dois... É sobre isso que pretendo discutir.

Por mais que sintamos o ímpeto de afirmar não se tratar de algo natural, não é isso que os indícios apontam. Muitos sociólogos, antropólogos, psicólogos e biólogos estudaram e estudam com afinco essa questão e até hoje não está muito claro o motivo de existência do tabu do incesto. Mas uma coisa é consenso: esse tabu é universal. Existe em todas as sociedades conhecidas, mas as noções de parentesco podem variar entre elas. Para algumas o que para nós seriam primos são irmãos. Em outras a mãe biológica é só um parente qualquer, enquanto que o pai é uma figura de autoridade e vice-versa. Mas em todas as organizações sociais conhecidas existe algum parente “proibido”, com o qual não pode haver sexo.

Dentre as renomadas figuras que se debruçaram sobre essa incógnita, como Durkheim, acredito que a pessoa trouxe respostas mais coesas e interessantes foi o antropólogo Claude Lévi-Strauss, com a sua teoria de “troca de mulheres” entre homens. Para remover o desconforto causado pela visão que aparenta machista podemos inverter e dizer “troca de homens” que dá na mesma. Mas essa análise, que envolve questões matrimoniais e de construção de famílias, demanda um post só para ela e, de qualquer forma, não me sinto (e não sou) habilitado a discorrer sobre. Então recomendo esse texto aqui, que explica de forma simples toda essa noção de “troca de mulheres” sugerida por Lévi-Strauss.
 
Outro consenso moderno é o de que não há nenhuma espécie de repugnância intrínseca e biológica no humano que o faça desprezar e rejeitar o incesto, pelo contrário. Cito abaixo um trecho do capítulo II (O Problema do Incesto) do livro Natureza e Cultura, de Lévi-Strauss:

“Mas não há nada mais duvidoso que esta suposta repugnância instintiva. Porque o incesto, embora proibido pelas leis e pelos costumes, existe, sendo mesmo, sem dúvida, muito mais frequente do que levaria a supor a convenção coletiva do silêncio”

Se não fosse da natureza humana manter relações incestuosas, elas simplesmente não ocorreriam. O fato de proibirmos a mesma só confirma a sua existência, pois a sociedade só proíbe aquilo que ela mesma suscita.

 
Trecho do mesmo livro de Lévi-Strauss:
“Não existe nenhuma razão para proibir aquilo que, sem proibição, não correria o risco de ser executado”.

Então por que a proibimos? Bom, os mecanismos sociais que atuaram na formação da sociedade ocidental usaram como pilar a proibição de relações entre parentes consanguíneos próximos, tendo como função a troca de mulheres (ou homens) nos casamentos e formação de famílias. Para uma compreensão melhor faz-se necessário a leitura do texto que deixei linkado no terceiro parágrafo.

No primeiro parágrafo eu deixei em aberto a possibilidade de união entre natureza e cultura para explicar o problema do incesto, bom, isso porque Lévi-Strauss também usa esse raciocínio para explicar o tabu. A união entre natureza e cultura, nesse contexto, consiste no fato de a natureza impor a aliança, porém sem especificar como a mesma irá ocorrer. Não existe distinção, para a natureza, entre mãe e filho e irmã e irmão (não uma distinção que determine comportamento) e é aí que entra a cultura. A cultura sim dita o funcionamento, os mecanismos pelos quais essas uniões/alianças irão ocorrer. O propósito disso já foi supracitado. Termino aqui o primeiro arco do que queria abordar no post e no parágrafo seguinte parto para o próximo assunto que quero abordar, referente também, é claro, ao incesto.

Será, num futuro distante, o incesto algo aceito pela sociedade ou por parcela dela. Independente do quão profundo e fundamentado seja esse tabu ainda assim a história nos mostra que a tendência é que os mesmos caíam. Será que meus netos verão passeatas pela descriminalização do incesto? Por mais que eu sinta nojo, sou obrigado a reconhecer que se trata de algo que acontece e que, em certos casos, considero até aceitável, por mais esquisito que possa parecer. Alguns irmãos, após adultos, se tornam casais. Não sou nenhum moralista a ponto de querer impor que os outros vivam e se comportem da mesma maneira que eu. Aliás, isso já foi comum em algumas famílias reais europeias a fim de manter uma suposta “pureza” sanguínea.

Vou citar alguns filmes que falam sobre o assunto. Já adianto que sobre um desses filmes que citarei, o simples fato de relacioná-lo ao incesto já se caracteriza spoiler, portanto, já estão avisados.

* Pecados Inocentes (2007): 
Filme dirigido por Tom Kalin, com Julianne Moore, Eddie Redmayne e Stephen Dillane. É baseado em fatos reais e conta a história de Barbara Daly e do seu relacionamento com seu filho Tony e como isso evoluiu para proporções trágicas.





* Do Começo ao Fim (2009): 
Filme brasileiro dirigido por Aluizio Abranches. Mostra o relacionamento homossexual entre dois irmãos, da infância até a idade adulta.







* Oldboy (2003):
Obra prima, Oldboy é um filme Sul Coreano dirigido por Chan-wook Park e com Min-sik Choi como protagonista. Dae-su Oh é levado para a delegacia por estar alcolizado e num momento em que sai para ligar para a esposa, desaparece. Acorda num quarto de hotel, onde é mantido preso. Sem saber o motivo da prisão e sem poder se comunicar com ninguém, ele permanece nesse quarto durante anos, até que um dia a porta do quarto se abre e aí realmente começa a trama.

*O Sopro no Coração (1971):
Filme francês dirigido por Louis Malle. Garoto de 15 anos, Laurent vive numa sociedade burguesa e conservadora e nutre uma paixão por sua mãe, Clara.
Continue lendo ►

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Lévi-Strauss - Cultura e Progresso

Para Claude Lévi-Strauss o progresso se dá quando uma cultura entra em contato com outra (ou outras) culturas, pois as trocas culturais que se sucederiam serviriam como mecanismo de propulsão para o progresso.

Ele acreditava também que o progresso não é algo que ocorra ou precise ocorrer em uma mesma direção. Portanto, seria um ato de grande etnocentrismo querer ditar o que é “evolução” e o que não é. O que é progresso e o que não é.

"todo progresso cultural é função de uma coligação entre as culturas" (LÉVI-STRAUSS, 1976, Raça e História).
 
De acordo com ele o etnocentrismo faz com que grupos sociais distintos se repudiem e se afastem um dos outros; esse distanciamento entre as culturas é negativo, pois como já foi supracitado, para que o progresso cultural ocorra faz-se necessário a coligação entre culturas.
 
"nenhuma cultura está só; ela é sempre dada em coligação com outras culturas" (LÉVI-STRAUSS, 1976, Raça e História).
 
Com esse mesmo discurso, Lévi-Strauss automaticamente atingia o Evolucionismo Social. Não acreditava na homogeneidade cultural e isso por si só já representava uma crítica contra essa tradição cultural que perdurou durante muitas décadas do século XX.

Para ele,o evolucionismo social desconsidera as singularidades de cada cultura e comete um equívoco ao tentar classificar em ordem hierárquica qual é moderna e civilizada e qual é atrasada e primitiva.

Diz que delimitar um ponto inicial para o início da “evolução” não explica as diversidades das sociedades, pois, de acordo com ele, com a “evolução”, no decorrer do tempo, todas as sociedades se tornariam iguais, desaparecendo todas as suas peculiaridades, e nada indica que qualquer coisa parecida irá ocorrer.



Bibliografia:

Lévi Strauss: Natureza e Cultura
Lévi-Strauss: Raça e História
Continue lendo ►

Franz Boas - Rompendo com o Evolucionismo Social e Etnocentrismo

Os autores considerados evolucionistas que precederam Boas, inclusive os próprios pais da antropologia (Frazer, Taylor e Morgan), possuíam métodos teóricos e metodológicos que lhes deram a alcunha de Antropólogos de Gabinete.

Baseavam-se, de forma predominante, na ideia de uma linearidade da cultura humana, na qual a mesma, de forma gradativa, iria evoluindo.
Havia, portanto, uma hierarquia cultural. Para esses autores não existiam “culturas”, mas sim “cultura”, uma única, que iria evoluindo no decorrer do tempo. Chegaram a classificar a sociedade em três estágios fundamentais: Selvageria, Barbárie e Civilização, nessa ordem. O último estágio seria o referente às sociedades ocidentais, notadamente Europa e Estados Unidos.


Percebe-se aí um forte etnocentrismo. Utilizavam também o Método Comparativo, que consistia em fazer análises de diversas sociedades através de descrições relatadas (em papel, diários, documentos etc.) por exploradores, religiosos que se instalavam ou passavam por essas regiões ou por qualquer um que tivesse escrito algo sobre determinada população.
 
Os três pais da antropologia utilizavam esse método, hoje claramente ineficiente, para tentar comprovar uma regra geral e uma suposta linearidade entre as diferentes sociedades. Em decorrência de toda essa linha de pensamento surgiu a máxima: “Um só caminho, uma só humanidade”.
 
Franz Boas discordava da tradição evolucionista e da metodologia caracterizada pelo Método Comparativo, já citado acima. Ele representou um marco de ruptura com o princípio do evolucionismo cultural, tanto nos aspectos teóricos quanto nos práticos. Acreditava e afirmava que era muito mais provável que as culturas (também usava a palavra cultura no plural, expondo sua tese da diversidade) tivessem se desenvolvido e se desenvolvam de forma independente; até sobre própria ideia do difusionismo, de acordo com ele, não explicava totalmente as culturas. Ele considerava improvável a possibilidade de uma regra geral para o comportamento humano.
 
De acordo com Boas o método comparativo, que era defendido arduamente por Taylor, era ineficaz e não valia como prova do “evolucionismo cultural”. Enquanto Tylor dizia que a comparação de relatos sobre um mesmo objeto, fazendo teste de recorrência de elementos culturais, era suficiente para averiguar uma regra cultural, Boas discordava e afirmava o oposto.
 
Esses escritos e relatos, que os evolucionistas utilizavam, não possuíam base verdadeiramente científica ou confiável, de acordo com Boas. Tais escritos, dizia ele, poderiam ser meros produtos do senso comum e de uma visão demasiadamente etnocêntrica por parte de seus autores.
 
Boas também não acreditava que o determinismo geográfico pudesse explicar totalmente a formação e a cultura de um povo. Isso porque o determinismo geográfico não explica a causa de grandes diferenças culturais entre sociedades que se desenvolveram em regiões geográficas semelhantes.
 
Boas propunha um método que estudasse as mudanças em uma única sociedade/cultura. Para ele era mais importante entender os processos culturais que ocorrem no presente do que propor grandes leis de desenvolvimento da civilização.
 
Em suma, Boas defende uma antropologia que enxergue a cultura como um conjunto de diversos fatores, como uma totalidade. Como algo impossível de ser resumido em leis, tais como ocorre muitas vezes nas ciências biológicas. 

Bibliografia:
Boas, Franz: As Limitações do Método Comparativo
Boas, Franz: Raça e Progresso
Castro, Celso: Evolucionismo Cultural
Artigo "Horizontes Antropológicos" de Nicole Isabel dos Reis.

Franz Boas

Continue lendo ►

Sistema Eleitoral e Sistema Partidário

O sistema eleitoral adotado pelo país tende a repercutir diretamente na quantidade de partidos. Uma quantidade maior ou menor de partidos influencia no grau de representatividade.

Numa linha vertical, onde o ponto mais alto significa uma grande representatividade  e o mais baixo, uma baixa, poderiam se enquadrar dois sistemas eleitorais básicos.

Esses sistemas seriam o de representação majoritária e o de representação proporcional. No topo da linha estaria o sistema proporcional e no início, o majoritário. 
 
No sistema proporcional ocorre uma maior dispersão, onde as múltiplas (e muitas vezes demasiadas) participações podem gerar maiores clivagens. No entanto, mesmo no sistema majoritário pode haver uma quantidade grande de partidos. Em casos como dos EUA, por exemplo, onde o mecanismo eleitoral se baseia em dois grandes partidos, Republicano e Democrata, ainda assim existe uma enorme quantidade de interesses regionais que ditam como os representantes das inúmeras regiões dos cinquenta Estados irão se comportar e se posicionar.
 
Nesse contexto entende-se que a escolha do sistema eleitoral reflete (em geral) na quantidade de partidos, mas isso não é regra.

Bibliografia:
Pasquino, Gianfraco (2005). Curso de Ciência Política. Principia. Capítulos IV e V.
Sartori, Giovanni. (1982) Partidos e Sistemas Partidários.
Lijphart, Arend: Modelos de Democracia. Desempenho e padrões de governo em 36 países.

Giovanni Sartori
Gianfranco Pasquino

Continue lendo ►