terça-feira, 5 de julho de 2011

Acreditar não é uma escolha

Nós possuímos menos controle do que julgamos.
Acreditar ou não em algo não é uma decisão, independente do que se trate.
Parece bastante óbvio e, talvez exatamente por causa disso, muitos simplesmente ignorem. É muito comum ouvir discursos de ateus ou de teístas falando sobre “opções” de crenças. Isso não existe.


Uma ideia, crença, ideologia etc. pode ser forçada, pode ser embutida na mente de uma criança em desenvolvimento, por exemplo, mas não pode ser acreditada como se fosse um produto disponível numa loja a ser apontado e comprado. Se você disser a um louco para acreditar em algo, talvez ele consiga fazer isso, mas se trataria de uma grande ressalva.
 
Os caminhos que nos levam a adotar uma religião ou desacreditá-la fazem parte de um mecanismo muito mais complexo do que o simples ato de decisão. Um ateu pode não acreditar em fantasmas pelo fato de sua racionalidade o impedir de aceitar algo que para ele é ilógico. Não está nas mãos dele acreditar ou não nisso. Pode ler milhares de livros sobre o assunto e passar meses assistindo filmes sobre espíritos e ainda assim, mesmo que queira, não conseguirá reverter sua descrença.
 
Claro que um ateu pode tornar-se teísta e vice-versa, mas isso não é uma escolha. Pode até ser uma busca, mas nunca uma escolha. Sei que além de estar discutindo algo óbvio, ainda por cima estou sendo repetitivo, mas é bom ser enfático.
 
Algo sério que cabe aqui nesse tema é a questão da “lavagem cerebral”, independente do tipo. Mesmo que não esteja nas mãos de um indivíduo decidir no que vai acreditar, isso não o impede de, por conta própria, chegar as suas próprias conclusões. Concluir (individualmente, é claro) que céu e inferno não existem não é a mesma coisa que decidir, para que fique claro.

Acontece que maioria das pessoas não recebe essa oportunidade e já crescem tais quais robôs, sendo programadas. Nada as impede de formar um senso crítico mais tarde e questionar toda essa bagagem herdada de seus pais (ou quem quer que seja), mas é muito mais difícil.
 
Por isso que figuras como Richard Dawkins condenam que crianças sejam levadas para a religião, pois de acordo com ele e muitos outros intelectuais isso tira o direito da criança de desenvolver sua personalidade e conceitos por si só ou analisá-los de forma menos tendenciosa.

Já ouvi de amigos que não passar para o filho a própria crença é o mesmo que delegar isso para outros. Será?
Será que mesmo sendo bombardeada por diversos pontos de vista uma pessoa não consegue, durante o seu desenvolvimento, avaliar por si própria e filtrar o que considera menos verossímil? Somos apenas reflexos de nossos pais ou de nossa criação? Somos apenas um amontoado de características absorvidas do resto da sociedade? Existe algum individualismo?


A primeira imagem foi retirada do filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange - 1971), no qual o protagonista sofre uma série de tentativas de lavagem cerebral para que seu comportamento seja alterado.

12 comentários:

  1. Pois é, desde cedo somos levados a acreditar em Deus e é muito difícil abandonar essa ideia. Falando de religião, nunca consegui ficar em nenhuma mesmo tendo feito até a primeira comunhão. O que posso dizer é que toda vez que tentavam me obrigar a algo, eu saía fora. No caso da religião católica, desertei logo após a primeira comunhão, quando a catequista começou a levar os alunos da sala de aula direto para dentro da igreja na hora da missa.

    Talvez isso aconteça porque minha família nunca seguiu nenhuma tradição religiosa. Quando pequena frequentei centros de macumba, uma igreja pentecostal e a católica... mais tarde, passei pelo espiritismo kardecista, além de ter vários amigos evangélicos.

    Mas me sinto bem sem religião. Acho que olhar de fora para todas é mais interessante do que ficar dentro de uma só.

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  2. Eu, acredito também que orientar uma pessoa para um religião é de certa maneira enfiar-lhe molduras diante da cara, limitando o seu campo de visão. Eu hoje digo-me ateu, procuro explicar pela lógica tudo e mais alguma coisa, mas sou de uma cultura em que abundam relatos de sobrenatural. As pessoas de fora, europeias principalmente, riem-se disso, mas as pessoas que como eu, cresceram nesse meio, por mais que descremos disso, ressalvamos sempre uma dúvida, e não o tomamos assim por tão ridículo e infundado. Por outras palavras, sim, crescer numa igreja leva-nos a aceitar deus e a mais dificilmente sacudirmos dessa crença. Eu cresci numa igreja e até já quis ser padre, libertei-me disso por ter lido muita coisa e por não limitar-me apenas a ler a título informativo, mas a pensar no que lia. Porém, imagina quantas pessoas não têm essa "sorte"? E quando não a têm limitam-se a aceitar o que lhes for ensinado.

    Tal como a Vera também andei por muitas religiões e por filosofias religiosas, a maioria pelos livros, mas não por rebeldia, porém porque não conseguia tirar o que me meteram na cabeça quando criança, DEUS ESTÁ AI ALGURES, e quando começava a perceber a incoerência de uma religião, passava para a outra. Primeiro procurei pelo DEUS cristão, depois, por um deus qualquer, depois desisti de deus. Mas há ainda um vazio que preencho com algo, a LOGICA, pois sabemos que a natureza odeia o vazio, e como eu arranquei o deus de onde mo puseram quando puto, preciso de por lá algo.

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  3. E acredito que sim, que existe o individualismo, mas não um individualismo tão não formatado como muitos por aí pretendem. Quando não somos formatados pela cartilha que faz a maioria, somo-lo por uma cartilha talvez elitista, mas uma cartilha na mesma, a diferença então ocorre no facto de que ao procuramos cartilhas elitistas começamos a querer elaborar a nossa própria, e aí embora usemos as mesmas regras, conseguimos mostrar individualidade.

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  4. Comigo aconteceu algo semelhante.
    Cresci indo em Igrejas e em Centros Espíritas.
    Todo fim de semana estava no Centro Espírita, durante aproximadamente uns 6 anos da minha infância. Dos 6 aos 12 eu acho.
    Engraçado que nunca me identifiquei com a Igreja, enquanto que o Karcedismo eu achava fascinante.

    Com uns 8 anos já era abertamente ateu e os orientadores do centro Espírita que eu frequentava (André Luiz/Vila Madalena) sabiam disso e em momento algum tentaram forçar qualquer tipo de ideia, ideologia etc.
    Eu ia lá, assistia às aulinhas religiosas, passava horas na biblioteca da unidade, almoçava... Foi uma fase muito boa.

    Mas tenho noção que esse lugar deve ser uma grande exceção. Não são todos que lidam dessa forma com a diferença.

    Penta, em relação ao individualismo, tenho minhas dúvidas. Desde que comecei a ler Durkheim, Weber, Goffman, entre outros, passei a ser mais cético em relação a isso. Mas ainda preciso estudar mais e refletir mais para poder formar uma opinião.

    Veraft, conheci muitos evangélicos e pude perceber que, ao menos aqueles que conheci, agiam de forma muito preconceituosa em relação às outras religiões, cultos etc. Sem contar que eles tendem a ser mais fechados para discussão.

    Não poderia concordar mais com a sua frase:

    "Acho que olhar de fora para todas é mais interessante do que ficar dentro de uma só" [2]

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  5. É... os kardecistas não costumam tentar convencer ninguém de que aquilo é que é o certo. Eles deixam a pessoa decidir o que quer. Quanto aos evangélicos... realmente, para ser amigo de um evangélico nem tente discutir alguma coisa, não adianta... são mto preconceituosos. O pior nem é o fato deles não aceitarem discussão, é querer convencer a outra pessoa de que ela tem que seguir o que eles seguem.

    Tenho amigos evangélicos, mas é pq não bato de frente com eles. Quando eles tentam vir pra cima de mim com aquele papo de que Jesus é o Senhor... aí a coisa pode ficar feia, tento ter paciência...

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  6. Realmente os evangélicos são preconceituosos, mas acho que ainda não conversaram com as testemunhas de jeová. É claro que há sempre excepções, tenho uma amiga TdJ com quem discuto muito bem, mas a maior parte deles quer impingir-te o seu deus e ficar zangada quando falas da tua descrença. E falando nisso, houve uma mórmon (a igreja deles fica perto da minha casa) que foi evangelizar o meu irmão à minha casa, e convidou-me a assistir, eu disse que era ateu, ela disse que não fazia mal, aceitei. Depois que ela começou, eu fui fazendo perguntas e, bendito Sócrates, usei uma espécie da maiutica contra ela, e a certa altura tive de desistir porque ela estava quase a chorar. Por exemplo, ela afirmava que a sua religião era verdadeira que havia o testemunho de joseph smith, então eu perguntava sobre a religião fé bahai (ou lá como se escreve) e dizia: então Bahaulai (ou lá como se escreve) mentiu ao dizer que falou com deus? Mohamed também mentiu. Quando ela confirmava que eles mentiram e que o testemunho verdadeiro era o deles, eu dizia, se aqueles mentiram então nao podemos provar que J Smith não mentiu, porque tudo o que temos é o testemunho dele como temos dos outros. Agora, quando ela me vê num passeio, muda para outro.

    E acho que os kardecistas nao procuram convencer ninguem porque para eles tudo o que tens de aceitar é que existe espírito e um mundo sobrenatural e maneira como lá vais chegar e estabelecer comunicação é bem variada e não tem só um caminho.

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  7. Tive uma experiência bastante semelhantes com mórmons norte-americanos.
    Aqui no meu bairro existem vários.
    Um dia, após certa insistência, acabei deixando que dois deles entrassem em casa, já que já os conhecia de vista. Depois me arrependi, mas foi engraçado.

    Eles entraram em casa, tentaram me fazer cantar com eles um trecho do livro, não conseguiram. Mas cantaram só eles mesmo.
    Tentaram me fazer dizer amém pelo menos umas quatro vezes e tentaram me fazer rezar umas duas vezes.

    Não responderam de forma lógica nenhuma das minhas indagações sobre as evidências do evolucionismo. Mas me surpreende tamanha dedicação... Sair dos EUA, aprender português e ficar andando de terno e gravata debaixo de um sol de doer, aqui no Brasil... Não é pra qualquer um rs

    Eles só foram embora depois que me obrigaram a prometer que eu iria ler o livro dos mórmons, que eles me deram de graça. Até pretendo ler, em algum momento.

    Antes de ir embora, um deles me disse:

    "Olha, eu sei que você não acredita, mas posso te garantir que Deus existe sim". Ele nem disse isso bravo, apenas com uma convicção tamanha como se ele próprio tivesse visto o tal.

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  8. Vim retribuir a visita e dizer que sempre será bem vindo lá em casa! Gostei de seu texto, bela reflexão...já leu Laranja Mecânica? ou 1984?
    bjs
    Jussara

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  9. Olá Jussara

    Assisti ao filme Laranja Mecânica, mas infelizmente não li o livro, ainda.
    Também não li 1984, mas esse está na minha lista dos que lerei ainda este ano.
    Ler A Revolução dos Bichos foi suficiente para me tornar fã do Orwell, agora preciso tomar vergonha na cara ler os demais livros dele.
    Obrigado pela visita :)
    Beijos

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  10. Eu meio que concordo com você, a maioria ds vezes nossos pais vem a meter suas crenças (não só religiosas) em nossas cabeças e não são todas as pessoas que tem personalidade ou coragem o bastante para indagar/recusar. A maneira como 'todos' agem nos faz pensar que só há aquela maneira. As pessoas acabam por achar que acreditam naquilo, depois de um tempo passam a acreditar mesmo.

    Comemoro quase todos os dias por minha curiosidade e inflexibilidade em relação à opniões, não é qualquer um que consegue me fazer concordar/discordar de algo, e se consegue é só depois de muita avaliação de minha parte. Sorte que sempre fiz muitas perguntas, muitas das quas ninguém se atrevia a responder para não contradizer seus princípios.

    Já tentaram me enfiar o deus cristão de tudo quanto é forma, teve até uma época em que eu achava que acreditava, mas não passou disso mesmo. Mas é super desagradável as pessoas tentar nos enfiar algo na cabeça, não raro por aqui uns evangélicos me abordam na rua, alguns já chegaram a me segurar pra poder falar. Aff!

    Há muita falta de respeito na crença/descrença do próximo. O que acho triste é que muitas das pessoas que tentam nos convencer de suas crenças o fazem porque aconteceu isso com elas. O direito de escolher é negado à muitos.

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  11. Priscilla de la Fleuret

    Olá, concordo com você, alterando apenas a última frase para: "O direito de trilhar seu próprio caminho é negado a muitos".

    Alguns, como você, desenvolvem um senso crítico e questionam aquilo que tentam impor e acredito que isso é uma ferramenta que utilizamos para nos soltar das amarras do conservadorismo, dogmatismo etc. Infelizmente não são todos que desenvolvem essa necessidade de questionar.

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