sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ser Homem - O Homem hoje

Há algumas décadas, ao menos no mundo ocidental, a noção do "ser homem" era relativamente simples, mas com a emancipação feminina e com diversas mudanças de paradigmas isso se tornou algo mais complexo. Existe atualmente uma confusão compreensível nesse sentido. Mas antes de abordar esse assunto é necessário e importante aprofundar-se um pouco mais nessa questão da distinção entre homem e mulher. Distinção comportamental, obviamente.



Margaret Mead
Recorrerei, então, à exímia antropóloga Margaret Mead (1901 -1978). Mead foi uma das grandes alunas de Franz Boas e é tida como uma das grandes figuras da história da antropologia. Militante pelos direitos das mulheres e do movimento de libertação feminina, ela lutou durante toda sua vida por esta causa. Em seu livro “Sexo e Temperamento” (1935), escrito após um árduo trabalho de campo com três culturas da Nova Guiné, Mead coloca em xeque a visão que se tinha acerca do "papel” do homem e da mulher.

A tendência predominante era a de que a biologia determinava o comportamento e, portanto, o homem “naturalmente” agiria de uma forma e a mulher, de outra. O que essas culturas da Nova Guiné deixaram evidente é que não é exatamente assim. Trata-se de algo muito mais cultural do que biológico.

Abaixo uma breve descrição dessas culturas:


·         Arapesh: homens e mulheres são bastante semelhantes (em comportamento) e ambos possuem temperamento pacífico;

·         Mundugumor: homens e mulheres com temperamento oposto ao do povo anterior;

·         Tchambuli: ocorre uma inversão de papéis se comparado com o comportamento padrão ocidental da primeira metade do séc.XX. Enquanto as mulheres trabalhavam e se mostravam mais práticas, os homens agiam de forma oposta, ficando em casa e cuidando das crianças.

Feita essa introdução, posso ir para o tema central: o homem na atualidade.

Claro que aquela imagem padrão do “macho alfa” ainda persiste e o termo “o homem da casa” não deixou de ser comum, embora o peso não seja mais o mesmo. O modo de andar, de olhar, de falar, de se vestir e até mesmo os gostos musicais e predileções para filmes e culinária eram padronizados e qualquer homem que se afastasse muito desse modelo passava a ter sua masculinidade ou capacidade como macho alfa sob suspeita.
Ainda hoje todos esses preceitos existem, mas de uma forma muito menos intensa e comumente confusa. Não se sabe mais ao certo o que é “ser homem”. Para alguns ser homem é falar grosso e fazer sexo com muitas mulheres, para outros é ser autônomo e possuir capacidade de liderança, e para os mais rústicos é o simples fato de não fazer uma determinada lista de coisas e não se comportar de certas maneiras: não gostar de sobremesa, não depilar nenhuma parte do corpo, jamais chorar, não falar sobre os próprios sentimentos, não usar sabão líquido, não lixar as unhas, não saber cozinhar nada além de macarrão instantâneo etc.

Ocorre que o muro de concreto que outrora separou feminino de masculino hoje nada mais é do que uma mera cortina de seda. Exclusividades masculinas tais quais votar, trabalhar em determinadas atividades, praticar certos esportes e agir de determinadas maneiras simplesmente deixaram de existir. Não vou detalhar tudo para evitar que o texto se torne prolixo.

Se antes o sentido de “ser/existir” do homem era trabalhar e prover a família, enquanto a mulher ficava em casa cuidando das crianças e dos afazeres domésticos, hoje essas atribuições específicas de gênero esvaíram-se.
O homem hoje é menos estereotipado e ocorre o mesmo com a mulher. Mas enquanto que a mulher desfruta de mais liberdade e menos tabus (embora ainda haja muito pelo o que lutar), muitos homens caem na confusão da “identidade macho”. Enquanto alguns aceitam bem essa nova situação, outros se sentem perdidos. Ocorre tanto com os jovens como com os mais velhos. Alguns dizem que é tudo consequência da emancipação feminina (que a meu ver ainda está ocorrendo) e das lutas diversas por liberdade, como o movimento LGBT.

Independente da causa, o fato é que o mundo mudou. Mesmo que ainda exista muito machismo e conservadorismo, é inegável que a realidade do séc. XXI (no contexto ocidental e parte do oriental) é bastante peculiar se comparada com a dos séculos anteriores.

Quero concluir deixando um vídeo, traduzido por mim (a tradução não é das melhores), que julgo bastante pertinente para o tema aqui tratado:

8 comentários:

  1. Até alcançar o equilíbrio as coisas ficam realmente confusas mesmo. As mulheres ainda passam por isso, e tb sofrem bastante com a multiplicidade de tarefas.

    Mas hj em dia acho que as coisas são bem mais simples do que parecem, nós é que complicamos de mais! :-)

    ResponderExcluir
  2. Eu culpo as estereotipações. Um ser humano não é igual ao outro, nem gêmeos o são. O grande problema está no : homem é assim, mulher é assado. Então para ser homem todos os homens devem ser assim, e analogamente todas as mulheres devem ser assado.

    Para mim é tudo muito simples, homem tem testículos e pênis, mulher seios e vagina, o comportamento que cada um desenvolver influencia apenas na personalidade. Um homem vestido de rosa ainda é um homem, assim como uma mulher suja de graxa continua sendo uma mulher.

    Há homens/mulheres inteligentes, engraçados, sérios, bonitos, feios, agressivos, independentes, sensíveis, preencha a lacuna. Pegar um único adjetivo para representar um dos gêneros é com certeza um grande erro. Me admira a quantidade de pessoas que ainda o cometem mesmo agora em que a ciência já evoluiu tanto e provou a diversidade entre os humanos de inúmeras maneiras.

    ResponderExcluir
  3. Muito bom o vídeo! E o post, claro! hehe

    Para mim, o conflito atual da importância ou não de papéis definidos (tanto pra gênero quanto pra raça, idade, classe social...) acontece enquanto as pessoas já aceitam em si mesmas as diferenças do padrão, a própria individualidade, mas ainda cobra e não está disposta a aceitar a individualidade dos outros. Até que um dia a pessoa é obrigada a comparar o que ela diz com o que ela faz, e aí começa a crise.
    Viajei longe, né? hehe.

    ResponderExcluir
  4. Oi Marina!
    Pois é, eu encontrei esse vídeo no YouTube e adorei! Aí resolvi traduzir e colocar aqui junto com o post, para acrescentar.

    Eu não entendi muito bem o que você disse.
    De que forma o conflito de importância de papéis ocorre enquanto esses indivíduos já aceitam as diferenças do padrão? Quais diferenças de padrão? Qual é o conflito entre o que essa pessoa diz e faz?

    Obrigado pelo comentário! :)

    ResponderExcluir
  5. Olá, Fernando!

    Vim aqui por meio do blog da Lola.

    Gostei deste post. Como mulheres, ajuda-nos a entender um pouco melhor sobre o que se passa com os homens. Aliás, uma grande vantagem para vocês é a quebra da máxima "homem não chora", isto é, homem de verdade não expõe suas emoções ou sentimentos perante os outros, o que lhes trazia grande prejuízo emocional e afetivo.

    Ser homem ou ser mulher é uma construção cultural, do mesmo modo que a infância ou a velhice. Acredito que ambos, homem e mulher, estejam em uma transição confusa acerca de sua identidade e de seus papéis sociais, bem como de suas escolhas e prioridades na vida.

    Às mulheres são designados inúmeros papéis os quais elas devem realizar um verdadeiro "se vira nos 30" para darem conta de tantas exigências impostas muito mais por elas mesmas que pelos homens. A eles, o papel de pai torna-se mais evidente, ao mesmo tempo em que, no trabalho, eles devem continuar disputando entre si (e também com elas) com o objetivo de verificar quem é o melhor, o mais forte, o mais poderoso, o mais profissional.

    Tudo isso se deve às transformações sócio-histórico-político-econômico às quais fomos submetidos em muito pouco tempo, causando-nos inquietações e levando-nos a questionamentos - muitas vezes sem a resposta imediata - acerca do certo e do verdadeiro, de quais comportamentos assumir, quais os melhores papéis, como e quando desempenhá-los.

    Precisamos nos adaptar à nova ordem!

    Abraço!

    ResponderExcluir
  6. Oi Giovana, obrigado pelo comentário!
    É bem isso mesmo: o comportamento é uma construção social e querer perpetuar padrões que reprimem a mulher ou homem usando esses argumentos chulos de que é assim que as coisas são e sempre foram é simplesmente ridículo.

    É bom também para o homem que certos comportamentos que antes eram obrigatórios agora não sejam mais, como o exemplo que você citou.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  7. Seu texto tem muitas referências e no seu esforço para não ser prolixo, o texto comete diversas vezes a Falácia da petição de princípio.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo que eu poderia ter argumentado mais sobre algumas das coisas que citei, principalmente as do início do post, mas não o fiz exatamente pelo motivo que você apontou. Não queria tornar o texto muito prolixo e nem fugir muito da questão central.

      Excluir