domingo, 27 de novembro de 2011

Guest Post: USP, Greve e a Representatividade das Assembleias

Recentemente escrevi um texto, que pode ser lido “aqui”, sobre a questão das assembleias da USP, a ocupação da reitoria da mesma e outras questões. A Letícia, que é uma amiga da USP, aceitou escrever um texto em réplica ao texto escrito por mim. Ele está logo abaixo.

Assim como o Fernando, sou estudante do primeiro ano de Ciências Sociais na USP. Também sou aluna do 9º semestre de Direito no Mackenzie, e vim aqui a convite do para expor minhas idéias acerca das assembléias, ocupação da reitoria etc. pelo fato de nós discordarmos em inúmeros aspectos em relação ao que vem acontecendo na USP. Muito democrático da parte do , a quem agradeço por abrir este espaço para uma opinião divergente.

Sem mais delongas, gostaria de começar pela representatividade – ou não – das assembléias gerais que vêm ocorrendo semanalmente. Para o as assembléias não representam os anseios de toda a universidade. De fato, em que pese cada vez mais cursos venham aderindo ao movimento, se pensarmos na totalidade dos cursos do campus, não há uma participação maciça nas assembléias. Como exemplo, dos cursos da FEA – que tradicionalmente não aderem a movimentos grevistas -, ou ainda da POLI. Interesses divergentes? Sim. Mas não acredito que estas divergências se encontrem apenas no debate acerca da presença da PM dentro do campus, ela vai muito além.

 Conforme o sociólogo Luis Antônio Groppo*, doutor pela Unicamp,

Luis Antônio Groppo
“(...) parte importante dos estudantes que invadiram reitorias de universidades estaduais de São Paulo e federais país afora, em uma breve leitura dos acontecimentos, pertenciam a cursos das Ciências Humanas, menos prestigiados e em crescente precarização, de jovens oriundos de camadas sociais mais distantes das elites socioeconômicas e que ocuparão provavelmente postos de trabalho menos prestigiosos e menos bem pagos, tais quais a docência no ensino fundamental.”


Ele atribui a escassa participação política dos jovens a fatores socioeconômicos, devidos aos quaisos jovens das classes populares e médias são empurrados antes a pensar no seu próprio presente e futuro próximo, inclusive em questões como sobrevivência”. Groppo aponta ainda que a militância vem sendo substituída pelo voluntariado, considerado atualmente importante requisito profissional para o mercado de trabalho, bem como que a família e a religião, que tendem ao particularismo e ao conservadorismo, são as principais instituições de referência aos jovens, de acordo com pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo.

Diante disto eu questiono: é somente devido à falta de espaço ou receio de alguma hostilização o fato de não haver uma maior participação nas assembléias? Ou será queum desinteresse geral pelo debate político dentro - e fora - da Universidade? Esta última é a conclusão a que tenho chegado.

A greve geral foi deliberada em assembléia geral realizada na FFLCH, em 08 de novembro, e ratificada na assembléia geral realizada em 17 de novembro, na FAU, por ampla maioria (lembrando que eram cerca de 3 mil estudantes). Nãoque se falar em ilegitimidade da mesma. Se não vem sendo respeitada por todos os cursos, atribuo este fato a dois motivos especiais: I) ao desinteresse na participação do debate político por parte dos alunos, ponto abordado acima e II) a ADUSP – Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo, não ter deliberado pela greve dos professores, apesar de apoiar as reivindicações.

É claro que o fato dos professores não terem entrado em greve acaba por enfraquecer a decisão tomada na assembléia estudantil, pois os alunos que estão mais interessados em terminar o semestre, entrar de férias, e não querem se envolver no debate político, vão comparecer às aulas, desrespeitando a decisão da assembléia de estudantes. E aqui não há nenhuma crítica, ao menos diretamente, àqueles que permanecem alheios ao debate. Ocorre que quando você se exime de participar, de votar, alguém vai tomar uma decisão por você, e é por isso que vislumbramos contradições (deliberação a favor da greve geral por ampla maioria em assembléia x alunos querendo aula).

Foi o que aconteceu, aliás, na assembléia das Ciências Sociais que deliberou pela retirada das cadeiras das salas de aula. A decisão ganhou por uma diferença, se não me engano, de três votos. Eu fui desfavorável à retirada das cadeiras, e foram muitos os descontentes com essa decisão. Mas entre estes, nem todos estavam na assembléia que aprovou a decisão, legitimamente, por uma apertada maioria.

um questionamento acerca da ausência de espaço para opiniões divergentes dentro das assembléias, o que fundamentaria o desinteresse na participação em assembléias pelos alunos. O Fernando apontou a presença de “tapas, empurrões e até latas com cerveja”, o que me pareceu exagerado, pois venho participando das assembléias e fiquei sabendo de um caso em que se atirou uma lata de cerveja em um aluno que se absteve em uma votação. De qualquer forma, estes atos, obviamente, devem ser repudiados. Entretanto, a meu ver, simples vaias devem ser encaradas assim como aplausos, ou seja, forma de manifestação, que deve ser livre.

Quanto à partidarização do movimento estudantil, isto não elimina o descontentamento dos estudantes em geral em relação ao que vem ocorrendo no campus. Vou me valer mais uma vez das palavras de Groppo:

“(...) há várias manifestações de descontentamento estudantil, como em diversas ocupações de reitorias nos últimos anos. Ainda que não se deva desprezar a denúncia de que houve certa manipulação por grupamentos da ‘extrema esquerdadissidentes da UNE, esta cooptação, tentada e talvez em parte conseguida, não deve ocultar a insatisfação de parte importante dos estudantes que participaram das invasões”.

Podemos ainda lembrar de Rousseau, quando fala acerca da vontade geral versus as facções: “quando uma dessas associações é tão grande que sobrepuja todas as demais (...) nãovontade geral, e a opinião vencedora não passa de uma opinião particular” **. Não acho que exista um grupo tão forte e homogêneo no movimento estudantil da USP que tenha esse poder, de se sobrepor à vontade comum dos estudantes, e percebemos isso nas próprias assembléias, em questões que são aprovadas, por exemplo, por uma maioria apertada. Ou seja, há muita divergência e debates sim nas assembléias! A solução apresentada pelo próprio Rousseau, acerca das facções é: “em havendo sociedades parciais, impõe-se multiplicar-lhes o número a fim de impedir desigualdade entre elas”. Quanto mais debate, mais grupos divergindo, melhor para se chegar ao interesse comum! E é por isso tão importante a participação nas assembléias, pelos contrários ou não às greves, pelos contrários ou não à PM no campus, ao reitor etc.

Certamenteainda muito que se falar, tal como sobre a ilegitimidade da ocupação da reitoria, questão que, para mim, está ultrapassada, e ainda sobre a possibilidade de um plebiscito, mas percebo que me alonguei.

Sim, é um debate interminável, e o importante é isso, que se debata! Por isso agradeço mais uma vez pelo convite , e parabéns pelo seu blog!

Leticia G. Garducci

**  ROUSSEAU, Jean-Jacques, 1712-1778. O contrato social - tradução Antônio de Pádua Danesi – 3ª ed. – São Paulo : Martins Fontes, 1996. p. 38
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

USP - Sobre as assembleias, a ocupação da reitoria e outras questões

Discordo quando dizem que as assembleias que ocorrem na USP representam os anseios de toda a universidade. Acredito que esteja longe de alcançar isso. As assembleias são importantes, claro, mas, nos moldes atuais, elas não possuem muita credibilidade. Um ótimo exemplo é o fato de a maior parte da USP simplesmente não ter acatado a greve geral convocada em 08 Novembro.
É um ato de extremo reducionismo dizer que quem não participou das assembleias ou não encaminhou propostas é inerte. A verdade é que nessas assembleias existe uma concentração de alunos com tendências políticas bastante homogêneas, uma extensa partidarização (PSOL, PSTU, PCO etc.) e, além disso, grupos que se organizam de forma a impedir (com vaias ou hostilização) que outros pensamentos ou propostas sejam discutidos. Na primeira assembleia teve tapas, empurrões e até latas com cerveja foram atiradas em colegas que queriam expor opiniões divergentes.

Também não podemos esquecer que a ocupação da reitoria não foi legítima. Os alunos (e eu estava entre eles) votaram pela não ocupação, mas, mesmo assim e deixando de lado quaisquer princípios democráticos, eles - a ala mais radical e supostamente revolucionária - simplesmente invadiram/ocuparam. Para mim o termo ocupar é um eufemismo nesse contexto.
É mais do que evidente que a mídia retrata os alunos da USP de forma extremamente estereotipada e não expõe de forma adequada as suas propostas e ideias, mas, ainda assim, esses mesmos "revolucionários" não são assim tão altruístas como se querem fazer parecer. Existem questões (ligadas principalmente aos sindicatos ali presentes) que dão uma perspectiva um pouco diferente do comportamento desses alunos.

E, para esclarecer, acredito que a ocupação é sim uma forma válida de revolta, reivindicação e pressão e concordo com muitas que já foram realizadas antes, na USP ou em outros locais, mas essa última que ocorreu já nasceu equivocada e sem o apoio dos próprios alunos presentes na assembleia.

Voltando para a questão da greve, vale também lembrar que a liberdade individual de muitos  alunos interessados em assistir as aulas está sendo cerceada e deliberadamente desrespeitada. Na Letras alunos foram impedidos, em alguns momentos, de entrarem no prédio. Já no prédio do curso de Ciências Sociais, por exemplo, as cadeiras foram retiradas das salas. Lembrando que os professores se reuniram e decidiram NÃO participar da greve convocada pelos alunos.

Também não podemos esquecer de um fator muito importante e que é ignorado pela esmagadora maioria dos alunos que convocaram a greve: realização de plebiscito. Muitos já pediram a realização de plebiscito, incluindo CAs (Centros Acadêmicos), como o da POLI, e, no entanto, isso foi deixado de lado. Alguns chegaram a dizer que o plebiscito não representa o tipo de democracia ideal para a universidade. Pura estupidez. Democracia é democracia. Para as questões chaves, como a presença ou não da PM no campus, ou mesmo na questão da greve geral, um plebiscito deveria ser convocado e, após período de debates, votado.
Acho que não preciso dizer o motivo pelo qual o tema “plebiscito” é forçosamente deixado de lado e menosprezado por alguns que se dizem democráticos e interessados na real representação de toda a universidade.

Em suma, a intenção com esse post era relatar a minha visão particular de parte dos eventos ocorridos na USP e expressar meu descontentamento; as assembleias não são representativas, muitas decisões são arbitrárias e muito do que se diz em nome de todos os alunos na verdade diz respeito ao consenso de uma minoria.

Confira a réplica da Leticia G. Garducci:

*Todas as fotos do post foram tiradas por mim. Acho que isso fica evidente pela falta de habilidade com a câmera do celular.
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