domingo, 2 de dezembro de 2012

Aborto – Argumentos Contra

No rol dos temas polêmicos, o aborto está lá no topo. Como alguém que já teve opiniões distintas sobre este ponto, contras e a favor, posso afirmar que há muita confusão sobre o assunto, mesmo entre profissionais de saúde, incluindo aí os médicos. Também existe certa tensão, principalmente quando pontos de vista divergentes se chocam. E não há como ignorar as religiões e os religiosos que se posicionam contra, como é o caso da igreja católica. Então o objetivo deste post é reunir os argumentos que são utilizados contra o aborto, sendo eles religiosos ou não. E, como de costume, depois farei outro post, mas com os argumentos a favor da descriminalização.


As opiniões mais comuns:

  • O feto é um ser humano, então deve possuir os mesmo direitos que qualquer indivíduo, adulto ou não, nascido ou não

  • Não há como traçar uma linha (que seja livre de contestações) na qual se possa determinar quando o feto passa a ser uma pessoa ou a possuir vida, então o melhor é partir do pressuposto que se trata de uma vida desde o momento da concepção;

  • Toda pessoa tem direito à vida, logo, o feto também deve possuir esse direito;

  • A mãe deve ter o direito de decidir sobre o que ocorre com o seu corpo, mas não com o corpo que está em seu útero;

  • A grávida tem obrigação moral de suportar os meses da gestação e parir seu filho;

  • Exceto em casos de estupro, a responsabilidade pela gravidez é da mãe, por não ter usado camisinha ou anticoncepcionais;

  • Mesmo que o feto não possa ser considerado “vivo” antes de desenvolver um sistema nervoso central, ainda assim ele é uma vida em potencial, já que se desenvolverá se a gravidez não for interrompida;

  • O feto sofre durante o aborto.


Dentre as que eu costumo ouvir, as opiniões acima são as mais corriqueiras. No grupo daqueles que são arduamente contra a descriminalização do aborto, percebe-se um consenso de que os métodos para evitar a gravidez são abundantes e que, dado esse fato, não faz sentido permitir que o aborto seja realizado, já que alternativas para prevenir a gravidez estão disponíveis. Questionados sobre a ignorância de parte significativa da população em relação a métodos contraceptivos, sobre a situação degradante em que milhares de famílias vivem (onde ocorre perpetuação da pobreza e altas taxas de fecundidade), ou mesmo sobre a numerosa quantidade de mulheres que morrem por complicações decorrentes do aborto, respondem que a solução para o cenário atual não é a descriminalização do aborto.

As opiniões mais extremas:

Posições contrárias ao aborto mesmo em casos de estupro ou nos quais a gestação ou parto representa risco para a vida da mãe.

  • Seria assassinato realizar o aborto, mesmo em casos em que a gestação ou parto represente risco para a vida da mãe. Já deixar que a mãe morra para que o filho viva não seria;

Trecho retirado do artigo "Uma defesa do aborto", de Judith Jarvis Thomson: O argumento mais conhecido neste caso é o seguinte. Dizem-nos que fazer o aborto seria matar diretamente a criança, ao passo que não fazer nada não seria matar a mãe, mas apenas deixá-la morrer.”

  • Ainda que a gravidez seja fruto de um estupro, o feto possui direito à vida;

  • Mesmo em caso de anencefalia, em que não há expectativa de vida após o nascimento, a gravidez não deve ser interrompida, pois a efemeridade da “vida” do recém-nascido não anula o seu direito a ela.  

Em geral as opiniões mais extremas possuem vínculo com a religião, embora isso não seja regra.

Argumentos religiosos:
  • A vida se inicia no momento da concepção, portanto, qualquer atentado contra ela implica em assassinato;

  • O aborto é um pecado, uma vez que infringe o mandamento “Não Matarás”.


Dom Odilo Scherer
Um dos grandes representantes da igreja católica no Brasil, o Arcebispo Dom Odilo Scherer reafirma esse pensamento e, como não poderia deixar de ser, condena a interrupção da gravidez: “não pode ser descartada uma vida em função da outra”, frase do Arcebispo sobre o aborto e sobre a vida da mulher, em entrevista ao programa Roda Viva. De acordo com ele, a política pública deve ser de apoio tanto à mulher quanto à criança, de forma que se faça que a vida de ambos seja assegurada. Para a Igreja, a vida começa no momento da concepção, então ela não pode ser interrompida por motivo algum.

Outras religiões podem ser mais ou menos moderadas em relação a isso. No artigo “O Aborto: Um Resgate Histórico e Outros Dados”, as autoras fazem um apanhado geral da história do aborto e a maneira como ele foi encarado pelas diferentes civilizações. Sobre o momento atual, no contexto das religiões, elas dizem que a Igreja Protestante e a Judaica são mais flexíveis, enquanto que no catolicismo a rigidez é maior.

O que pensam os médicos?

No artigo “Aborto: conhecimento e opinião de médicos dos serviços de emergência de Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil, sobre aspectos éticos e legais”, os autores analisam o conhecimento e opiniões dos médicos sobre o aborto, legislação acerca dele e sobre a situação da mulher no Brasil de hoje. A conclusão foi a de que predomina a ignorância sobre a legislação e conduta que deve ser adotada pelo médico em casos ou tentativas de aborto.

Dos entrevistados, 17,5% concordariam em realizar o aborto caso o mesmo fosse descriminalizado. 23% não possuem opinião  e 60% não realizariam. Um dado a ser notado é que 8,8% dos médicos ginecologistas obstetras entrevistados sentem raiva da mulher quando atendem um caso de aborto, mas 68% afirmam o oposto e 45% não reprovam mulheres que praticam o aborto.

No Brasil, em casos em que a mulher alega ter sido estuprada, não há a obrigatoriedade de boletim de ocorrência ou de laudo do Instituto Médico Legal, não sendo criminalizado o aborto nestas circunstâncias. Ainda assim, constatou-se que aproximadamente 70% dos entrevistados afirmaram o oposto, revelando ignorância sobre a questão. E 26% acreditavam ser necessário o consentimento do marido para que o aborto pudesse ser feito, o que não é o caso.

Concluo então ressaltando que as opiniões expostas neste post não correspondem à minha. Mesmo no texto com os argumentos a favor, que escreverei, alguns dos pontos que serão apresentados não corresponderão, necessariamente, com o que penso e acredito.

Leia o post em que continuo a discussão – Aborto e Descriminalização

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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Vegetariano?! Mas por quê?

Primeiro devo dizer que não sou vegetariano, mas sim ovo-lacto-vegetariano. Para ser honesto eu odeio esse nome, então prefiro dizer que simplesmente não como carne. Não sou um militante, então para descobrir que sou vegetariano (ovo-lacteo) é preciso passar um tempo considerável comigo, afinal não saio por aí tentando convencer ninguém a viver como eu.


O sentido deste post é colocar meu ponto de vista, sabendo que ele representa o de muitas outras pessoas também. Não o de todas e especialmente não o dos militantes. E com a experiência de alguém que não come carne há quase 10 anos posso dizer que essa pergunta do título já me foi feita centenas de vezes. Creio que isso acontece com todos nós, então esse post também serve como esclarecimento.

Outra coisa é que eu já ouvi todas as piadas possíveis sobre ser vegetariano. Elas não me incomodam, mas saiba que quando você for fazer aquela piada “super” bem bolada, achando que está sendo original, o alvo da brincadeira já a ouviu numa quantidade angustiante de vezes. Então no caso de não conseguir resistir e vier me perguntar se pelo menos “carne mijada” eu como, até vou rir junto com você, para não te deixar sem graça, mas por dentro estarei bocejando.


Então vamos lá... Por que eu não como carne? Bastante simples. Porque ao comê-la eu contribuo de forma direta com uma indústria que existe e funciona através da morte (em geral bastante dolorosa) de outros seres. E também porque eu não preciso. O principal pilar para esse meu jeito de viver é o fato de poder ter uma qualidade de vida boa (alguns dizem que até melhor) mesmo sem me alimentar de carne. Se esse não fosse o caso e a carne realmente fosse crucial para a manutenção da minha saúde, aí eu comeria sim.

Percebam que não se trata de “amor aos animais”, embora eu goste de muitos deles. Não tenho nenhum vínculo especial com a vaca, com o frango ou com o porco. Apenas não vejo necessidade de comê-los, especialmente quando o sistema de abate vigente é bastante cruel. Na verdade nem se trata de crueldade, mas sim de ausência total de empatia. Tornou-se algo tão mecânico que o sofrimento do animal, durante a criação e no momento do abate, deixou de ser relevante.


A meu ver, no momento atual o mais importante não é o vegetarianismo, mas sim a modificação da indústria. É nesse ponto que muitos militantes divergem de mim. A maioria deles acredita que a “luta” deve ser focada em transformar a sociedade, e não acho isso pragmático, a não ser que o intuito seja fazer com que todos saibam o que estão consumindo e como aquele produto final chegou ao prato.

Penso que o mais importante agora é que a lei brasileira seja cumprida. A lei proíbe que o animal seja mantido em situação em que não possa se movimentar bem, respirar adequadamente ou receber uma quantidade mínima de sol. Também é bastante clara ao dizer que o abate deve ser rápido, sem causar sofrimento prolongado. Nada disso é cumprido. E ainda assim a legislação é vaga em diversos pontos. Então além de se fazer cumprir a lei, a mesma precisa ser aperfeiçoada.


Voltando ao cerne da questão levantada, repito: não como carne porque não sou desprovido de empatia quanto ao funcionamento do sistema em relação a isso. Me importo. Mas não se engane pensando que a minha ética ou moral é diferente da sua, pois não é. Não me atrevo nem a falar de certo ou errado, natural ou não. O que nos diferencia é a nossa atitude diante da realidade em que vivemos. 
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Guest Post: Liberdade, nome feminino – final


[Essa é a parte final da série “Liberdade, nome feminino”, escrito pela Mari, dona do blog Devaneios e Desvarios.  Leia também a Pt.1 e a Pt.2.]
Liberdade é um conceito muito subjetivo, como já vimos nos outros artigos da série. Alguém pode ser livre, se sentir livre, mesmo entre várias circunstâncias cerceadoras.
“Inventar a liberdade”, como cantava Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii), não é algo a ser feito “na falta do que fazer”. Pelo contrário, em meio a tantas obrigações impostas até por nós mesmos, a liberdade é conceito a ser reinventado, elaborado, revisto.
Como viver plenamente a liberdade? É preciso responder a esta pergunta, tendo outra em mente: qual o seu conceito de liberdade?
Algumas obrigações a que nos submetemos, por mais irônico que pareça, no proporcionam liberdade. Como cantava Renato Russo (Legião Urbana), “disciplina é liberdade”.
Por exemplo, estudar com disciplina, em vez de sair e se divertir, apesar de no momento ser visto como um fardo, dá liberdade de futuramente escolher melhor uma carreira.
A blogueira Isabel postou no blog ALL uma reflexão que acredito ser oportuna para fechar esta série de posts:
“Liberdade para mim é uma coisa que vem de dentro..
Como você ser você mesmo' 
Temos a liberdade de escolher, quando sabemos o que escolher. É necessário então, conhecimento, para podermos dizer que temos plena liberdade de escolha. 
É nesse sentido que muitas vezes ouvimos a frase "o conhecimento liberta". 
Até mesmo na Bíblia: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". 
Seremos e poderemos nos considerar livres quando pudermos exercer nossas escolhas com conhecimento, reflexão e análise. E para isso é preciso a disciplina, já mencionada anteriormente. Sem isso, podemos nos considerar joguetes, vivendo uma falsa sensação de liberdade. O que seria uma ironia, já que essa palavra - liberdade - pontua nossa história desde tempos remotos.
Passo a bola para você, leitor: Quando você se sente livre? Verdadeiramente livre?
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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Strip-tease e Prostituição - Entrevista com Luna

Todas as imagens do post foram escolhidas pela Luna e retiradas da internet
O blog nunca teve um post que consistisse numa entrevista, mas achei que seria interessante. A princípio seria um Guest Post, mas a Luna sugeriu o formato de entrevista e eu gostei da ideia.

Luna era o nome que a entrevistada usava no trabalho e não é seu nome real. Ela é uma mulher como outra qualquer, com anseios e metas. Não é diferente de qualquer amiga que você tenha conhecido no colégio ou faculdade.

Outro detalhe é que qualquer um que trabalhe fazendo pesquisas, entrevistas e grupos focais, sabe que uma entrevista deve ser realizada por uma pessoa que o entrevistado não conheça, para evitar que as respostas sejam influenciadas, mas como se trata de algo mais informal, não vejo problema algum.

Também quero ressaltar que não tenho intenção de enaltecer ou criticar o trabalho como stripper ou prostituta (não que exista alguma relação direta) e o objetivo aqui é apenas expor a entrevista. Claro que a prostituição infantil e tráfico de mulheres devem ser duramente combatidos, mas quando a decisão de trabalhar nesse mercado parte única e exclusivamente da mulher, sem qualquer pressão externa, não vejo nada de errado. E não acredito que uma mulher seja melhor ou pior por trabalhar nessa área.

A entrevista está abaixo. Fiquem à vontade para comentar.

Por que o nome “Luna”?

No começo eu preferia que fosse Isa, mas não deixaram. Diziam que Isa era muito "fraquinho" e que não ia chamar atenção. Depois Elise, mas também disseram não. Então eu disse "coloca Luna, que eu vou pensar em outro nome amanhã", e gostaram.

De onde surgiu a ideia de fazer strip-tease?

Foi um pouco de tudo, desilusão amorosa, aventura, dinheiro. A ideia surgiu na verdade quando eu tinha uns 18 anos e vi um anúncio em uma revista prometendo 10 mil dólares mensais ou até mais, mas logo tirei isso da minha cabeça. Desde aquela época aconteceu muita coisa. Tive um relacionamento que partiu meu coração e gastei todas as minhas economias com essa pessoa. Então fiz o que toda mulher faz, me enchi de chocolate e sorvete até acalmar. Depois resolvi me aventurar; eu estava com 21 anos quando eu tomei coragem.

Se aventurar de que forma?

"Aventura" é apenas um apelido que eu dei pra época que trabalhei como stripper e foi mesmo uma grande aventura. Eu me aventurei conhecendo muitas pessoas, de muitos países, de muitos costumes e, claro, muito dinheiro.

Você disse que a possibilidade de trabalhar com strip-tease surgiu através de um anúncio numa revista, mas esse anúncio foi a porta de entrada nessa profissão?

Primeiro eu olhei a revista... Tive a ideia, mas desconsiderei imediatamente, aí depois de um tempo, quando as coisas apertaram, eu liguei lá. Liguei, marquei um encontro e acabei não tendo coragem pra ir. Nessa época eu trabalhava em uma balada e depois de um tempo conheci o dono do clube de stripper, que acabou me convencendo a fazer uma visita. Eu fui, visitei e me encantei com a primeira impressão. Comecei a trabalhar no mesmo dia com a ajuda das outras meninas.

O anúncio dizia que havia possibilidade de se ganhar até 10 mil dólares por mês. Você estava aqui no Brasil nessa época?

Não, eu completei quase todos os estudos no exterior e foi assim que tive contato. Quando eu li esse anúncio eu tinha 18 anos e nessa época as dançarinas que trabalhavam lá ganhavam até 40 mil dólares, pois não tinha o problema da crise [econômica], os clientes gastavam bem mais e sem preocupação. Eu entrei lá depois da crise e na verdade nunca cheguei a ganhar tudo isso.

O que passou pela sua mente nesse processo entre fazer essa escolha e começar a exercê-la?

Primeiro eu pensei no quanto eu achava que uma stripper não tinha valor, no quanto elas eram sujas. Eu achava isso e coisas muito piores; achava que se vendiam e que eu estava prestes a me tornar uma, então comecei a pensar diferente...

... tipo, "eu não preciso ser como elas", "eu posso ser diferente", "eu posso dançar e me valorizar ao mesmo tempo", "eu posso conquistá-los sem que eu precise me rebaixar".

Quando digo diferente, falo no modo de agir. As meninas agiam como se fossem ninfomaníacas, embora não fossem; eu agia como se fosse uma artista, uma lady (risos). Eles tentavam pegar nos meus seios e bunda e eu os parava, tentando ser o mais gentil possível. Se eles me dessem 50 dólares, eu pensava, “ah tudo bem”, e não passavam mais do que alguns segundos até que eles fossem conquistados e pagassem por uma dança particular.

E depois vi que algumas mulheres ali pensavam da mesma forma que eu.

Então a princípio você não pretendia fazer strip-tease, mas apenas dança sensual? É assim que se diz? Dança sensual.

A regra desde o começo era subir no palco e tirar a roupa, sensualmente, menos a calcinha.

A regra geral era tirar tudo, menos a calcinha, ou você que estipulou essa regra para si mesma?

Não, era regra da "casa".

Você disse que inicialmente achava isso baixo. Então o que a motivou a continuar e posteriormente mudar de ideia?

Muitas coisas. O dinheiro ajuda a continuar, e muito, ainda mais quando você precisa. Conforme eu via meu salário eu pensava "é aqui que vou ficar esse ano e aqui que começarei a juntar meu dinheiro de novo". As amigas que arrumei me motivaram, porque éramos um time e eu me sentia fazendo parte de alguma coisa.  Meu sonho de ter meu dinheiro, meu AP [apartamento], um carro, era imenso e não media esforço pra conseguir. E minha mãe me apoiava.  Isso tudo me fazia continuar.

Como você se sentia quando estava no palco dançando?

A primeira vez eu me senti horrível, tanto que torci meu pé cinco vezes; comecei a me julgar, pensar muitas coisas e fui para o banheiro chorar. Veio uma das brasileiras e disse que nesse trabalho eu deveria ser duas pessoas: uma que se magoa com o que está fazendo e outra que se sente orgulhosa e não liga pra nada que os outros pensam. 

Então eu tive que ser duas pessoas em uma, tive que ser eu de dia, e a Luna de noite. Mas foi apenas pra me ajudar a me acalmar no palco. Conforme o tempo foi passando eu fui me sentindo melhor e comecei a gostar das pessoas admirando a minha beleza, minhas curvas, meu corpo. Comecei a gostar de ver alguns homens deixando as outras dançarinas falarem sozinhas porque estavam hipnotizados comigo. Depois de algum tempo eu comecei a me sentir maravilhosamente bem dançando.

Você me disse que desenvolveu certo asco por homens e que, inclusive, teve suas primeiras experiências sexuais com mulheres durante esse período. Pode falar um pouco sobre isso?

Acho que homem se tornou uma figura desinteressante pra mim, pois eu já sabia exatamente o que iriam falar, fazer, propor ou pedir. Tornaram-se muito previsíveis, e o fato de eu conhecer homens diferentes todos os dias, deixar que me tocassem todos os dias, isso foi me cansando, me estressando, tanto a ponto de eu não me interessar mais por eles.

A Luna deveria se interessar por homens, melhor, pelo dinheiro deles, mas não eu. Então aos poucos começou a despertar desejos por mulheres até eu ter a minha primeira experiência.

O sonho de todo homem é ver duas mulheres se beijando, beijar duas mulheres de uma vez, ou dormir com elas, então muitos homens nos pagava para fazer isso. Um dia eu topei porque era uma amiga minha que estava se tornando muito próxima, e depois que descobrimos a facilidade que tínhamos em fazer nossos clientes gastarem se nos beijássemos, se tornou bem frequente.

Com o tempo ela se confessou bissexual e eu nem liguei, beijava mesmo. Um dia, conversando e bebendo, acabei chamando ela pra minha casa, porque ela estava sem condições de dirigir, e acabou rolando, foi bom.


Não é todo brasileiro que tem a possibilidade de estudar e viver no exterior. Daí se pressupõe uma condição financeira mais confortável. Era o seu caso?

Sim, mas depois da crise econômica muita coisa mudou, o salário abaixou mais de 20% e o emprego diminuiu. Antes eu trabalhava de 12 a 14 horas por dias e ganhava dinheiro apenas para me manter, então vi a minha vida se tornar cada vez mais difícil financeiramente.


Engraçado que sua mãe tenha te apoiado. Não sou especialista no assunto, mas imagino que essa não seja a atitude mais comum. O que sua mãe achou de tudo isso? Outros familiares também sabem?    

Antes de começar a trabalhar com isso eu cheguei na minha mãe e expliquei que tenho meus sonhos e que se ela não tem como me dar uma vida melhor, eu precisava correr atrás. Então pedi a permissão dela e ela me respondeu: "Filha, desculpa por não dar o que você merece, mas eu a apoio e só te peço que não faça carreira nesse lugar". 

Quero que entenda que a minha mãe me apoiou, mas nunca gostou de eu estar ali e se sentia culpada por não poder me dar as coisas que eu tanto queria. De forma alguma a culpo, ela sempre me deu tudo que eu pedi, mas chegou uma hora na vida que senti que deveria parar de depender 100% dela.  Além da minha mãe, só uma tia sabe e ela é a pessoa que mais me apoiou e ainda me disse que ela deveria ter tido minha coragem quando tinha a minha idade.

Como era a sua rotina nessa “casa”? Qual o nome certo? Bar, balada, casa de strip-tease?

Gentlemen’s Club. Entrávamos às 8h PM e às 9h PM tínhamos que estar preparadas para dançar. O Clube oferecia aula de pole dance grátis, mas não era obrigatório. Eu só fiz as aulas pra melhorar meu desempenho.

Subíamos no palco de 5 à 6 vezes por noite e cada menina dançava duas musicas e a roupa era tirada na segunda. A pior parte da rotina era beber álcool, porque ganhávamos comissão pelas garrafas de champagne e às vezes o cliente pedia cinco ou seis garrafas, mas caso ficássemos muito bêbadas, o staff nos levava pra casa. Ou ganhávamos um prato de comida grátis (risos).

O cliente podia escolher a garota que quisesse, podendo ela recusar, saindo da mesa, caso ele não gastasse muito (era regra da casa, mas a culpa era sempre nossa quando o cliente não queria gastar). Então caso o cliente viesse perguntar da menina, o staff dizia, "a garota não quer ficar, porque ela ficou muito chateada que o senhor não quer gastar com ela, e ela depende disso pra viver e bla bla bla". Na verdade eu nem ligava (risos).

Tem o Table Dance, que era a dança na mesa, e o Private Dance, que era dança privada, só a garota e o cliente.

Como eram os clientes?

Tinha todos os tipos de clientes e é difícil falar só de um. Tinha os românticos, os fiéis, os carentes, os solteiros, os enrolados, os que tinham fetiches e os pervertidos. A maioria deles eram casados, ricos, com filhos e esposas; muitas vezes me mostravam fotos da família e diziam que os amava. Eu não questionava "então por que está aqui?," jamais. Se despertasse um sentimento de culpa ele poderia ir embora com o dinheiro que eu ganharia naquela noite, então eu apenas mudava de assunto, mas antes dizia que ele tinha uma bela família. 

Quanto você ganhava semanalmente fazendo as danças e entretendo os clientes?

De 1 mil a 2 mil dólares por semana. A gorjeta dependia muito do desempenho das meninas e do cliente dela. Uma vez m cliente chegou a colocar um maço de dinheiro com 4 mil dólares na mão de uma das dançarinas. Eu já fiz meu melhor cliente gastar 10 mil dólares em uma noite. E há muitas outras histórias incluindo cliente, dinheiro, mesmo sem sexo.


Você me disse que recusava qualquer proposta que envolvesse prostituição e que quando um cliente insistia você estipulava um valor alto, como 10 mil dólares. O que te fez ceder?

Primeiro que ele [o cliente] era lindo, um senhor muito charmoso, como em filmes. Segundo que ele era irresistivelmente encantador, do tipo que abria a porta do carro e do restaurante. Terceiro que eu gostava dele, de como me tratava e me respeitava. E por último ele ia pagar o que eu pedi.  Meu “preço” era sempre 10 mil dólares, mas ninguém paga essa quantia, então chegamos a um acordo de 5 mil dólares.

Você se sentia objetificada ou tratada como um produto?


Em épocas de TPM sim (risos). Tinha clientes que me rebaixavam, xingavam, condenavam, mas eu os deixava falando sozinhos. E tinha clientes que me respeitavam, me entendiam, me ajudavam e com esses eu nunca me senti um objeto e nunca fui tratada como um produto, então eu acho que depende do modo como a pessoa te trata e como ela faz você se sentir. Já me senti como objeto por me oferecerem em uma despedida de solteiro. Já me trataram como produto, mas nesse trabalho temos que ser boas atrizes e não levar a sério certas pessoas.

Eu sempre levei na esportiva todas as piadas e, quando tentavam me magoar, eu sempre respondia a altura mas com muito humor, e assim eu ia conquistando meus clientes.

Você se prostituiu mais vezes?


Já tive namorados que eram clientes, mas aceitar dinheiro para fazer sexo foi só uma vez.

Por quanto tempo você trabalhou como stripper e qual é a sua avaliação de tudo isso agora que já passou?

Trabalhei um ano como stripper. Foi satisfatório... Porque lá você nunca está 100% contente ou 100% triste, é sempre meio termo, para tudo. Teve mágoas, lágrimas, estresse, mas também me diverti e fiz amizades.

Por que você resolveu sair?

Eu arrumei um namorado e apenas quis respeitá-lo.

Você se arrepende de algo?

Eu me arrependeria se meu pai descobrisse e morresse sem me perdoar. Se isso acontecesse eu me arrependeria de cada segundo que estive naquele lugar.


Deixo aqui meu agradecimento para a Luna, que abriu mão de um tempo imenso para responder essas perguntas. Muito obrigado!  

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quinta-feira, 31 de maio de 2012

A criação do menino e os afazeres domésticos - Resquícios do Passado

Antes de mais nada quero dizer que esse post será embasado na minha própria vivência e observação. Ele foi inspirado no post “14 itens para lidar melhor com a divisão das tarefas domésticas - para homens” do Blog “Adeus, Mariana”.

Já escrevi aqui sobre o homem atualmente “Ser Homem - O Homem Hoje”, post no qual falo sobre as transformações que ocorreram na forma do homem existir, sobre a relatividade dessas imposições de gênero e sobre a questão da identidade masculina, mas hoje quero falar de algo mais específico e que faz parte de toda essa equação.

Também já escrevi um pouco sobre a questão de gênero, sobre a luta das mulheres por igualdade e contra a repressão, mas agora falarei sobre o machismo na criação. Machismo bastante exposto e que faz parte da realidade de uma parcela significativa das famílias brasileiras.

Como todos sabem, meninos e meninas são criados de formas diferentes e visivelmente com funções específicas. Trata-se de algo enraizado na nossa sociedade e compreende uma gama imensa de aspectos que influenciam toda a formação da personalidade dessas crianças e a maneira como estas se comportarão quando adultas. No post “OS BRINQUEDOS EDUCATIVOS DE CADA GÊNERO”, do blog Escreva Lola Escreva, isso é evidenciado de forma bastante clara.

É comum que a criança, desde cedo, seja pressionada a expressar em suas brincadeiras as funções que a sociedade espera que estas executem quando adultas.
Além do fato da criação se dar de forma diferente, a própria relação que a criança do sexo masculino possui com o ambiente que a cerca é distante da experiência que a criança do sexo feminino terá. No caso das meninas, isso ocorre através de brincadeiras e jogos que, ainda hoje, estimulam um comportamento que representa o que é esperado da atuação da mulher em seu cotidiano, e ocorre também através do contato com os parentes, colegas e com a mídia, principalmente a TV, que reforçam esses padrões.

Enquanto que da menina se espera um modelo de exímia delicadeza, carisma, subserviência e atributos como saber arrumar a casa e cozinhar, do menino espera-se o oposto; ele deve brincar com o seu carrinho e guerrear com seus bonecos.
Em qualquer site de jogos é fácil encontrar uma categoria dedicada às meninas. Nessa seção vemos games como "Arrume a casa rápido", "Cozinhe para o Ken" e "Coloque as coisas no lugar".
Enquanto pai e filho vivem como lordes em suas casas, mãe e filha em geral ficam responsáveis por todas as tarefas domésticas, isso quando não possuem uma diarista que seja incumbida dessas tarefas. Também não quero entrar na questão do trabalho infantil... Claro que crianças devem utilizar o tempo estudando e usufruindo de parte dele para o lazer, mas acredito que é consenso que, a partir de certa idade (principalmente na adolescência), suas responsabilidades aumentam e é esperado que ajudem seus pais com as tarefas da casa, mesmo que seja apenas auxiliando ali ou aqui.

E mesmo quando isso não se faz necessário, ainda assim permanecem na forma de tradição os mesmos jogos, brincadeiras e noções de décadas atrás. Que dirá então da profissional responsável pelas tarefas domésticas (quando existe uma trabalhando para a família) sempre ser uma mulher? Que mensagem isso passa?

As crianças são cercadas por imagens e referências que influenciam na formação de suas identidades.
Na minha experiência eu sempre fui incentivado e até cobrado a ajudar nos afazeres da casa. Arrumar meu quarto, varrer o chão, lavar a louça, lavar o quintal... Mas nada disso nunca foi uma imposição. Percebam, eu era cobrado, mas nunca soou de fato como um dever. Já para a minha irmã, pelo que recordo, era diferente. Era OBRIGAÇÃO ajudar com a casa, lavar roupa e eventualmente fazer almoço e janta. E olha que eu sabia (e ainda sei) fazer tudo isso, inclusive, em minha “humilde” opinião, eu cozinhava até melhor que minha irmã, mas fazer ou não o almoço ou a janta era algo que dependia única e exclusivamente da minha vontade.

E esse padrão, com origens no patriarcalismo, se repete de geração em geração. Um padrão que impõe um comportamento bastante conveniente e confortável para os garotos e outro, nem tanto, para as garotas. E não estamos falando de algo que fica restrito ao ambiente doméstico, pelo contrário. Isso pode até começar no berço, mas se estende por toda a vida, seja dentro da casa ou do escritório.

Como diz o post que inspirou este, nós não vivemos mais em meados do século XX e não são todas as mulheres que aceitam essa dupla jornada sem o apoio do companheiro. Se hoje a mulher não está mais reclusa a casa, ao meio doméstico, muitos homens parecem não ter percebido isso e ainda vivem como se elas tivessem por obrigação entregar-lhes tudo nas mãos, desde o prato de comida até a roupa lavada.

Se existe uma solução para essa situação, ela está na conscientização coletiva. Os mecanismos para que isso ocorra estão aí, florescendo, através de movimentos feministas e de atitudes individuais que se comprometem a não perpetuar frutos podres do passado.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Guest Post: Liberdade, nome feminino Pt. 2

[Continuação do post da Mari, dona do blog Devaneios e Desvarios]

Como vimos no post anterior, liberdade é uma palavra difícil de definir e ainda mais de viver.

Quem é escravo de vícios, de ações que o prejudicam ou prejudicam a outros, somente vive a ilusão de que é livre.

A linha que separa a liberdade da libertinagem nunca foi tão tênue. Aos que se perguntam por que isso acontece, voltemos ao passado uns instantes: Durante muitas eras, em várias culturas, incluindo a nossa, a manifestação da vontade de ser livre sofria dura repressão. Pais das gerações passadas escolhiam as amizades dos filhos, davam horas para voltar para casa, escolhiam com quem iriam se casar, que profissão deveriam ter...


Os filhos destas gerações repudiaram este modelo "castrador", mas aí se deu o passo em falso: como sempre foram heterônomos, (heteronomia - para outro - alienação; contrário da autonomia ) possuíam boa vontade de mudar, de revolucionar, porém a maioria não conseguiu realizar esta mudança com equilibrio: caiu no extremo oposto da repressão: o lassez-faire (deixar fazer, deixar como está).  Pois como não tiveram condição de viver a autonomia, não poderiam ensiná-la para outros.

Com o discurso de que  não poderíamos ser reprimidos, deram vazão a todas as vontades, todos os desejos. Conheceram a libertinagem que, em vez de proporcionar a liberdade almejada, os acorrentou a prazeres fugazes, a paraísos artficiais.

Como postou sabiamente Bree Emma Sommers, no blog The Renegades.

"Por vezes, a própria comunidade nos põe um travão, impedindo-nos de prosseguir os nossos atos, de perseguir os nossos sonhos. Mas será isso saudável para a Humanidade? Não concordo. Qualquer pessoa que seja privada pela sociedade de exibir orientação sexual, religião, etnia ou até mesmo um mero capricho de adolescente, assim que apanha uma pequena oportunidade, dá azo à libertinagem, no seu contexto mais real, ultrapassando limites perigosos, derrubando barreiras vitais."
Hoje em dia, sentimos os reflexos. Não que nossa geração tenha sido reprimida, mas a falta de referência faz com que muitos jovens - ou nem tanto - queiram se livrar de uma situação desconfortável, real ou criada por eles, e não possuem o discernimento para fazê-lo. Recorrem então a meios inadequados, esquecendo o princípio da "liberdade que termina onde começa a do outro"  e cultivando o princípio da "liberdade a qualquer custo", não se importando em prejudicar outras pessoas no processo.

Continua a blogueira mencionada acima, com muita propriedade:


(....) Mas fazemos parte de uma sociedade hipócrita, vingativa, exorbitante, extravagante, onde todos se procuram exibir, onde todos procuram usufruir de uma maior liberdade, nem que isso implique quebrar a linha ténue que nos separa do próximo, que separa o que devemos ou não fazer. Mentes consumidas pela necessidade de consumo, gastas com a pressão da diferença"

Como se realmente vivêssemos em uma "Matrix", apenas alimentando a ilusão de que somos livres.

Como, então, podemos cultivar a verdadeira liberdade? No próximo post, a conclusão.
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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cotas Raciais - Argumentos a Favor

Já há no blog um post sobre cotas, no qual exponho alguns dos principais argumentos utilizados contra elas. Agora escrevo a segunda parte, há muito tempo prometida, colocando os argumentos a favor e tentando refutar os que se posicionam contra.

O que mais se diz é que combater racismo com racismo é ironia. E de fato o é. Mas dizer isso é partir do pressuposto que o uso de cotas segrega e esse não é o caso. Aliás, é o oposto. Esse pensamento é reducionista e desconsidera um cenário que justifica essa política de ações afirmativas. Não se trata de dar privilégios a um grupo por considerá-lo melhor ou menos capaz, mas sim de reduzir o abismo histórico entre etnias, promovendo um contato até então pouco comum, ou seja, dentro da universidade. 

Alguns falam em reparação histórica e social, mas talvez o termo “
reparação histórica” não seja o melhor, já que não há nada que se possa fazer para apagar estas páginas vergonhosas da nossa história. Mas é óbvio que isso não nos impede de lidar com a situação atual. Portanto, há muitas medidas que podemos - e devemos - usar para tratar essa ferida que sangra até hoje. Com o tempo, quem sabe, ela se torne apenas uma cicatriz, ainda que isso não anule o seu passado. 

Também há quem diga que é apenas um paliativo e que, no fim das contas, não resolve nada. Que é paliativo é verdade, mas isso não implica em inocuidade, no sentido de que não faz diferença. A maior parte dos negros no país não possuem as mesmas oportunidades que os brancos e não será com as cotas que isso irá mudar, mas é um passo nesse caminho.

No artigo intitulado “O Peso da História: A Escravidão e as Cotas”, o escritor Alex Castro discorre sobre como o peso histórico pode influenciar gerações e de como, no caso dele, o rumo das coisas foram completamente diferentes por não haver uma instituição coercitiva que limitasse as possibilidades dos seus antepassados. É interessante, pois percebemos como a criação de uma base é crucial para o desenvolvimento de uma família e de uma sociedade.

O branco atinge o topo escalando pelas cotas do negro e depois se desculpa pelo racismo cometido, porém recusa-se a ajudá-lo a subir também, alegando que fazer isso seria mais um ato de racismo.
Sim, existem brancos vivendo à margem do desenvolvimento e em situações às vezes tão degradantes e privadas de possibilidades quanto qualquer minoria desfavorecida e pode parecer injusto que alguém, apenas por ter uma tonalidade diferente de pele, possa ter “privilégios”. Mas entra aí uma palavra bastante recorrente nesse blog: contexto. Primeiro que de um lado temos todo um peso histórico e uma sociedade que funciona através de mecanismos preconceituosos que tendem a puxar o negro para baixo ou mantê-lo estagnado, e segundo, que mesmo entre os mais pobres, os negros ocupam, em geral, uma condição ainda mais degradante. Isso não ocorre por déficit intelectual ou qualquer coisa do gênero. É um reflexo de todo o racismo, discriminação e privação que marcou a história de uma etnia.

Então repito: é um grande reducionismo querer simplesmente taxar de racista uma ação afirmativa que visa modificar, ainda que minimamente, uma realidade decorrente de uma desigualdade histórica. Além da inclusão do negro (ou do indígena) na universidade, tão importante quanto é a interação que se dá por meio disso, Interação que não existia, uma vez que o negro não ocupa tais espaços ou, quando ocupa, é em um número extremamente inferior. Lembrando que tais cotas não entregam de graça vagas em universidades públicas (ou particulares, em programas como o PROUNI) e que é necessário lutar por elas. Os que conquistam essas vagas estão tão preparados quanto qualquer outro que tenha ingressado por ampla concorrência.

Essa é a minha opinião. Fique à vontade para comentar e expor a sua também. Você também pode seguir a página do blog no Facebook e no Google +. Ou seguir o autor do post no Twitter. 
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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Guest Post: Liberdade, nome feminino Pt.1

A Mari, professora e dona do Blog Devaneios e Desvarios, atendendo a um pedido que fiz, escreveu esse Guest Post. Nele ela fala sobre liberdade. Essa é a primeira parte e as demais serão publicadas posteriormente.



"Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome" (Clarice Lispector).

Liberdade de Imprensa, Liberdade de Credo, Liberdade Sexual, Liberdade de Expressão... Mas o que vem a ser essa palavra tão utilizada, que "não há quem explique e não há quem não entenda"? Analisemos uma definição impessoal, fria, do nosso dicionário:
liberdade
nome feminino
1. condição do ser que pode agir livremente, isto é, consoante as leis da sua natureza (queda livre), da sua fantasia (tempo livre), da sua vontade (decisão livre)
2. poder ou direito de agir sem coerção ou impedimento (liberdade de execução ou de ação)
3. poder de se determinar a si mesmo, em plena consciência e após reflexão, e independentemente das forças interiores de ordem racional (liberdade de decisão)
4. livre arbítrio
5. poder de agir sem motivo (liberdade de indiferença)
6. personificação das ideias liberais
7. tolerância
8. licença, autorização
9. figurado:  ousadia; atrevimento; familiaridade demasiada

10. figurado:  franqueza
11. [plural] regalias; imunidades;
liberdade de consciência direito de professar as opiniões religiosas e políticas que se julgarem verdadeiras;
liberdade individual garantia que todos os cidadãos têm de não serem impedidos do exercício dos seus direitos, exceto nos casos determinados pela lei;
LITERATURA liberdade poética uso de figuras e alterações morfológicas e sintáticas em poesia
(Do latim libertāte-, )


Bem, crescemos ouvindo que somos seres livres... Analisemos as três primeiras definições por hora.

1. Condição do ser que pode agir livremente, consoantes às leis da natureza, da sua fantasia, da sua vontade.
Ok. Eu posso agir livremente? Há controvérsias. Não posso sair pelada pela rua, cantando Heavy Metal às três da manhã. Faço parte de uma sociedade em que esse tipo de comportamento é inaceitável, ou pelo menos constrangedor, perturbador da ordem pública.

2. Poder ou direito de agir sem coerção ou impedimento.


Analisando o mundo em que vivemos, qual de nós pode dizer que age sem coerção ou impedimento? Temos regras na nossa sociedade, e muitas vezes hierarquias cruéis, que precisamos respeitar para continuarmos aspirando nosso ideal de... liberdade.

3. Poder de determinar a si mesmo, em plena consciência e após reflexão, e independentemente das forças interiores de ordem racional (liberdade de decisão)


Note a síntese da definição... muitas pessoas ficam na primeira parte da frase: "Poder de determinar a si mesmo" ou no parênteses: "liberdade de decisão". E esquecem o meio. Sim, o meio é importante, retomemos - eu sei que estou cansando, mas retomemos: ...."em plena consciência e após reflexão"(...)

Por que reforço esta parte da definição? Porque muitas pessoas querem liberdade, reclamam dos fardos que a vida coloca-lhes nas costas, dizem que querem ser livres! Querem tanto ser livres que rejeitam o que é bom juntamente com o que é mau para elas, ao mesmo tempo, e ficam sem norte.

Será que tudo o que fazem para serem livres, é fruto de consciência plena e reflexão? Uma pessoa que decide "ser livre", ficando em baladas, enchendo o corpo com substâncias danosas e fazendo "o que der na telha" pode ser considerada livre? Uma pessoa que escolhe o caminho do crime é realmente livre?

Muitas pessoas confundem as coisas, acreditam que a liberdade é não precisar de imposições de terceiros, nem amarras morais. Mas há a ressalva, "minha liberdade termina onde começa a do outro" Sou livre para tomar um porre, mas no dia seguinte meu corpo vai reclamar, a cabeça vai latejar e não poderei fazer o que quiser. Não serei livre para poder sair. O final da terceira definição diz: "independentemente das forças interiores de ordem racional".

Sou livre quando me desfaço de amarras interiores, não quando me rebelo sem causa.

Leia a continuação do post: Liberdade, nome feminino Pt. 2
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