quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Existe Racismo em São Paulo


Sim, em São Paulo. Por que não dizer no Brasil? Eu nasci em São Paulo, vivo em São Paulo e por mais que já tenha visitado outros Estados, me sinto mais confortável afirmando algo sobre uma região com a qual possuo um contato maior.

A princípio parece uma constatação óbvia, mas não é. Muitos argumentam que no Brasil o preconceito é baseado no fator socioeconômico e não (ou pouco) no racial. Esse preconceito classista realmente é intenso, mas uma coisa não anula a outra.

Vou pular os aspectos mais escancarados, como a ínfima presença de negros em universidades particulares e públicas ou em cargos de mais prestígio social. Alguns dizem que isso é apenas um reflexo do passado, que não corresponde ao brasileiro atual e que com o tempo os negros conseguirão se integrar melhor. Bobagem. É reflexo do racismo de ontem e de hoje.
Quero falar mesmo é do racismo latente: aquele que é mascarado de outra coisa qualquer. Ou então o racismo escancarado, mas que funciona como fofoca, e, portanto, fica mais difícil de perceber. Ninguém faz fofoca de uma pessoa quando a mesma está presente ou quando uma amiga ou familiar desta está próxima. É assim que o racismo se manifesta em muitos casos. Já pude presenciar muitas vezes e explicarei melhor nos parágrafos seguintes.

Olha eu aí
Detalhe, eu sou negro, embora a maioria das pessoas me considere apenas “moreninho”. “Péralá, Fernando! Sua mãe é branca e tem olho verde! Então você é no máximo pardo!”. Posso ser pardo e negro ao mesmo tempo, se for pra ver por esse lado. Afinal, a mãe do Obama também é branca e ele, suspeito, é até um pouco mais claro que eu. Nem por isso ele deixa de ser negro. [O exemplo parece bobo, mas mostra como é importante que existam referenciais para grupos que não possuem o mesmo espaço e valorização que os demais]
Também é engraçado ressaltar que as mesmas pessoas que dizem que sou apenas “moreninho” fazem piadas com a minha cor sempre que possível. Quando visto uma camiseta preta, sempre tem algum que vai olhar para mim, fingir que não me vê e perguntar pra outro amigo ao lado: “Cadê o Fernando?! Tô ouvindo, mas não tô vendo!”. Essa é uma das piadas mais batidas do gênero, mas pra ser honesto eu não me incomodo e posso até dar risada junto.

Vamos então à questão... Racismo latente é o que age com meia dúzia de camadas mascarando ou o que se revela apenas em círculos nos quais se acredita que não poderá surgir qualquer constrangimento. Um bom exemplo do primeiro tipo é o do taxista que se nega a atender um cliente negro.
Imagine acenar para um taxista que está parado no ponto de taxi esperando entediado por um cliente, e então receber como resposta um olhar de desprezo e um sinal negativo com o dedo indicador. Esse taxista poderia enumerar diversas razões não racistas para ter se recusado a atender, no entanto o desprezo em seu rosto o revelou, ainda que isso não sirva como prova. O que importa é que ele poderia até ter lançado um sorriso simpático e daria no mesmo.
Outro bom exemplo, agora do segundo tipo (aquele que afirmei funcionar como o sistema da fofoca), é qualquer barbaridade racista lançada no ar como se fosse a coisa mais natural e todos (ou a maioria) no grupo concordam:


Na mesa do bar, depois de duas ou três doses de tequila:
- Gente, vocês não acreditam... Eu fiquei com um preto! – diz a garota, consternada. Todos na mesa automaticamente ficam chocados.
- Com um preto??? – exclamam quase que simultaneamente duas de suas amigas, sentadas em cadeiras ao lado.
Dois dos três garotos presentes também não deixam de demonstrar surpresa com a loucura perpetrada pela amiga insensata.
Questionada sobre a proveniência do garoto, ela responde: - Não! Ele não era da rua, né! Eu conhecia.


Os dois casos acima aconteceram no mesmo dia, numa zona nobre de São Paulo. Todos na mesa do bar eram universitários e de classe média alta, com exceção de um com situação financeira mais modesta. Se houvesse um negro na mesa essa história nunca teria sido contada. Ou melhor, se tivesse um negro que fosse considerado negro e não moreninho. Isso não é algo incomum não. É bastante corriqueiro, basta que haja espaço.

Essas pessoas nunca discriminariam abertamente numa situação em que pudessem ser repreendidas ou constrangidas, também não são mal educadas e provavelmente seriam bastante simpáticas se alguém, negro ou não, lhes pedisse uma informação na rua. E, afinal, uma delas beijou um negro e não fez segredo disso, mas, em sua mente, foi uma aventura e não algo natural.
Então, com base nisso, vou dizer que existe racismo numa cidade com mais de 10 milhões de pessoas? Claro que não! Esses foram apenas dois casos entre inúmeros outros que presenciei no decorrer de toda a minha vida. Podem até dizer que estou fazendo drama ou tempestade em copo d'água, mas a questão não é essa. Não se trata de vitimismo, mas sim de constatação de um fato.

O garoto com o qual a menina do bar “ficou” provavelmente pertencia a mesma classe social, ou então era capaz de amenizar essa barreira (que não deveria existir), afinal ela não iria se aproximar dessa maneira de qualquer um que não dominasse o mesmo capital cultural. Existe sim muito elitismo e preconceito de classe social, mas tentar resumir a situação do Brasil apenas nisso é uma grande ofensa. Se através da minha mera percepção não posso afirmar categoricamente que o Brasil é um país racista, digo pelo menos que a cidade de São Paulo com certeza o é. 
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