quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cotas Raciais - Argumentos a Favor

Já há no blog um post sobre cotas, no qual exponho alguns dos principais argumentos utilizados contra elas. Agora escrevo a segunda parte, há muito tempo prometida, colocando os argumentos a favor e tentando refutar os que se posicionam contra.

O que mais se diz é que combater racismo com racismo é ironia. E de fato o é. Mas dizer isso é partir do pressuposto que o uso de cotas segrega e esse não é o caso. Aliás, é o oposto. Esse pensamento é reducionista e desconsidera um cenário que justifica essa política de ações afirmativas. Não se trata de dar privilégios a um grupo por considerá-lo melhor ou menos capaz, mas sim de reduzir o abismo histórico entre etnias, promovendo um contato até então pouco comum, ou seja, dentro da universidade. 

Alguns falam em reparação histórica e social, mas talvez o termo “
reparação histórica” não seja o melhor, já que não há nada que se possa fazer para apagar estas páginas vergonhosas da nossa história. Mas é óbvio que isso não nos impede de lidar com a situação atual. Portanto, há muitas medidas que podemos - e devemos - usar para tratar essa ferida que sangra até hoje. Com o tempo, quem sabe, ela se torne apenas uma cicatriz, ainda que isso não anule o seu passado. 

Também há quem diga que é apenas um paliativo e que, no fim das contas, não resolve nada. Que é paliativo é verdade, mas isso não implica em inocuidade, no sentido de que não faz diferença. A maior parte dos negros no país não possuem as mesmas oportunidades que os brancos e não será com as cotas que isso irá mudar, mas é um passo nesse caminho.

No artigo intitulado “O Peso da História: A Escravidão e as Cotas”, o escritor Alex Castro discorre sobre como o peso histórico pode influenciar gerações e de como, no caso dele, o rumo das coisas foram completamente diferentes por não haver uma instituição coercitiva que limitasse as possibilidades dos seus antepassados. É interessante, pois percebemos como a criação de uma base é crucial para o desenvolvimento de uma família e de uma sociedade.

O branco atinge o topo escalando pelas cotas do negro e depois se desculpa pelo racismo cometido, porém recusa-se a ajudá-lo a subir também, alegando que fazer isso seria mais um ato de racismo.
Sim, existem brancos vivendo à margem do desenvolvimento e em situações às vezes tão degradantes e privadas de possibilidades quanto qualquer minoria desfavorecida e pode parecer injusto que alguém, apenas por ter uma tonalidade diferente de pele, possa ter “privilégios”. Mas entra aí uma palavra bastante recorrente nesse blog: contexto. Primeiro que de um lado temos todo um peso histórico e uma sociedade que funciona através de mecanismos preconceituosos que tendem a puxar o negro para baixo ou mantê-lo estagnado, e segundo, que mesmo entre os mais pobres, os negros ocupam, em geral, uma condição ainda mais degradante. Isso não ocorre por déficit intelectual ou qualquer coisa do gênero. É um reflexo de todo o racismo, discriminação e privação que marcou a história de uma etnia.

Então repito: é um grande reducionismo querer simplesmente taxar de racista uma ação afirmativa que visa modificar, ainda que minimamente, uma realidade decorrente de uma desigualdade histórica. Além da inclusão do negro (ou do indígena) na universidade, tão importante quanto é a interação que se dá por meio disso, Interação que não existia, uma vez que o negro não ocupa tais espaços ou, quando ocupa, é em um número extremamente inferior. Lembrando que tais cotas não entregam de graça vagas em universidades públicas (ou particulares, em programas como o PROUNI) e que é necessário lutar por elas. Os que conquistam essas vagas estão tão preparados quanto qualquer outro que tenha ingressado por ampla concorrência.

Essa é a minha opinião. Fique à vontade para comentar e expor a sua também. Você também pode seguir a página do blog no Facebook e no Google +. Ou seguir o autor do post no Twitter. 
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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Guest Post: Liberdade, nome feminino Pt.1

A Mari, professora e dona do Blog Devaneios e Desvarios, atendendo a um pedido que fiz, escreveu esse Guest Post. Nele ela fala sobre liberdade. Essa é a primeira parte e as demais serão publicadas posteriormente.



"Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome" (Clarice Lispector).

Liberdade de Imprensa, Liberdade de Credo, Liberdade Sexual, Liberdade de Expressão... Mas o que vem a ser essa palavra tão utilizada, que "não há quem explique e não há quem não entenda"? Analisemos uma definição impessoal, fria, do nosso dicionário:
liberdade
nome feminino
1. condição do ser que pode agir livremente, isto é, consoante as leis da sua natureza (queda livre), da sua fantasia (tempo livre), da sua vontade (decisão livre)
2. poder ou direito de agir sem coerção ou impedimento (liberdade de execução ou de ação)
3. poder de se determinar a si mesmo, em plena consciência e após reflexão, e independentemente das forças interiores de ordem racional (liberdade de decisão)
4. livre arbítrio
5. poder de agir sem motivo (liberdade de indiferença)
6. personificação das ideias liberais
7. tolerância
8. licença, autorização
9. figurado:  ousadia; atrevimento; familiaridade demasiada

10. figurado:  franqueza
11. [plural] regalias; imunidades;
liberdade de consciência direito de professar as opiniões religiosas e políticas que se julgarem verdadeiras;
liberdade individual garantia que todos os cidadãos têm de não serem impedidos do exercício dos seus direitos, exceto nos casos determinados pela lei;
LITERATURA liberdade poética uso de figuras e alterações morfológicas e sintáticas em poesia
(Do latim libertāte-, )


Bem, crescemos ouvindo que somos seres livres... Analisemos as três primeiras definições por hora.

1. Condição do ser que pode agir livremente, consoantes às leis da natureza, da sua fantasia, da sua vontade.
Ok. Eu posso agir livremente? Há controvérsias. Não posso sair pelada pela rua, cantando Heavy Metal às três da manhã. Faço parte de uma sociedade em que esse tipo de comportamento é inaceitável, ou pelo menos constrangedor, perturbador da ordem pública.

2. Poder ou direito de agir sem coerção ou impedimento.


Analisando o mundo em que vivemos, qual de nós pode dizer que age sem coerção ou impedimento? Temos regras na nossa sociedade, e muitas vezes hierarquias cruéis, que precisamos respeitar para continuarmos aspirando nosso ideal de... liberdade.

3. Poder de determinar a si mesmo, em plena consciência e após reflexão, e independentemente das forças interiores de ordem racional (liberdade de decisão)


Note a síntese da definição... muitas pessoas ficam na primeira parte da frase: "Poder de determinar a si mesmo" ou no parênteses: "liberdade de decisão". E esquecem o meio. Sim, o meio é importante, retomemos - eu sei que estou cansando, mas retomemos: ...."em plena consciência e após reflexão"(...)

Por que reforço esta parte da definição? Porque muitas pessoas querem liberdade, reclamam dos fardos que a vida coloca-lhes nas costas, dizem que querem ser livres! Querem tanto ser livres que rejeitam o que é bom juntamente com o que é mau para elas, ao mesmo tempo, e ficam sem norte.

Será que tudo o que fazem para serem livres, é fruto de consciência plena e reflexão? Uma pessoa que decide "ser livre", ficando em baladas, enchendo o corpo com substâncias danosas e fazendo "o que der na telha" pode ser considerada livre? Uma pessoa que escolhe o caminho do crime é realmente livre?

Muitas pessoas confundem as coisas, acreditam que a liberdade é não precisar de imposições de terceiros, nem amarras morais. Mas há a ressalva, "minha liberdade termina onde começa a do outro" Sou livre para tomar um porre, mas no dia seguinte meu corpo vai reclamar, a cabeça vai latejar e não poderei fazer o que quiser. Não serei livre para poder sair. O final da terceira definição diz: "independentemente das forças interiores de ordem racional".

Sou livre quando me desfaço de amarras interiores, não quando me rebelo sem causa.

Leia a continuação do post: Liberdade, nome feminino Pt. 2
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