quinta-feira, 31 de maio de 2012

A criação do menino e os afazeres domésticos - Resquícios do Passado

Antes de mais nada quero dizer que esse post será embasado na minha própria vivência e observação. Ele foi inspirado no post “14 itens para lidar melhor com a divisão das tarefas domésticas - para homens” do Blog “Adeus, Mariana”.

Já escrevi aqui sobre o homem atualmente “Ser Homem - O Homem Hoje”, post no qual falo sobre as transformações que ocorreram na forma do homem existir, sobre a relatividade dessas imposições de gênero e sobre a questão da identidade masculina, mas hoje quero falar de algo mais específico e que faz parte de toda essa equação.

Também já escrevi um pouco sobre a questão de gênero, sobre a luta das mulheres por igualdade e contra a repressão, mas agora falarei sobre o machismo na criação. Machismo bastante exposto e que faz parte da realidade de uma parcela significativa das famílias brasileiras.

Como todos sabem, meninos e meninas são criados de formas diferentes e visivelmente com funções específicas. Trata-se de algo enraizado na nossa sociedade e compreende uma gama imensa de aspectos que influenciam toda a formação da personalidade dessas crianças e a maneira como estas se comportarão quando adultas. No post “OS BRINQUEDOS EDUCATIVOS DE CADA GÊNERO”, do blog Escreva Lola Escreva, isso é evidenciado de forma bastante clara.

É comum que a criança, desde cedo, seja pressionada a expressar em suas brincadeiras as funções que a sociedade espera que estas executem quando adultas.
Além do fato da criação se dar de forma diferente, a própria relação que a criança do sexo masculino possui com o ambiente que a cerca é distante da experiência que a criança do sexo feminino terá. No caso das meninas, isso ocorre através de brincadeiras e jogos que, ainda hoje, estimulam um comportamento que representa o que é esperado da atuação da mulher em seu cotidiano, e ocorre também através do contato com os parentes, colegas e com a mídia, principalmente a TV, que reforçam esses padrões.

Enquanto que da menina se espera um modelo de exímia delicadeza, carisma, subserviência e atributos como saber arrumar a casa e cozinhar, do menino espera-se o oposto; ele deve brincar com o seu carrinho e guerrear com seus bonecos.
Em qualquer site de jogos é fácil encontrar uma categoria dedicada às meninas. Nessa seção vemos games como "Arrume a casa rápido", "Cozinhe para o Ken" e "Coloque as coisas no lugar".
Enquanto pai e filho vivem como lordes em suas casas, mãe e filha em geral ficam responsáveis por todas as tarefas domésticas, isso quando não possuem uma diarista que seja incumbida dessas tarefas. Também não quero entrar na questão do trabalho infantil... Claro que crianças devem utilizar o tempo estudando e usufruindo de parte dele para o lazer, mas acredito que é consenso que, a partir de certa idade (principalmente na adolescência), suas responsabilidades aumentam e é esperado que ajudem seus pais com as tarefas da casa, mesmo que seja apenas auxiliando ali ou aqui.

E mesmo quando isso não se faz necessário, ainda assim permanecem na forma de tradição os mesmos jogos, brincadeiras e noções de décadas atrás. Que dirá então da profissional responsável pelas tarefas domésticas (quando existe uma trabalhando para a família) sempre ser uma mulher? Que mensagem isso passa?

As crianças são cercadas por imagens e referências que influenciam na formação de suas identidades.
Na minha experiência eu sempre fui incentivado e até cobrado a ajudar nos afazeres da casa. Arrumar meu quarto, varrer o chão, lavar a louça, lavar o quintal... Mas nada disso nunca foi uma imposição. Percebam, eu era cobrado, mas nunca soou de fato como um dever. Já para a minha irmã, pelo que recordo, era diferente. Era OBRIGAÇÃO ajudar com a casa, lavar roupa e eventualmente fazer almoço e janta. E olha que eu sabia (e ainda sei) fazer tudo isso, inclusive, em minha “humilde” opinião, eu cozinhava até melhor que minha irmã, mas fazer ou não o almoço ou a janta era algo que dependia única e exclusivamente da minha vontade.

E esse padrão, com origens no patriarcalismo, se repete de geração em geração. Um padrão que impõe um comportamento bastante conveniente e confortável para os garotos e outro, nem tanto, para as garotas. E não estamos falando de algo que fica restrito ao ambiente doméstico, pelo contrário. Isso pode até começar no berço, mas se estende por toda a vida, seja dentro da casa ou do escritório.

Como diz o post que inspirou este, nós não vivemos mais em meados do século XX e não são todas as mulheres que aceitam essa dupla jornada sem o apoio do companheiro. Se hoje a mulher não está mais reclusa a casa, ao meio doméstico, muitos homens parecem não ter percebido isso e ainda vivem como se elas tivessem por obrigação entregar-lhes tudo nas mãos, desde o prato de comida até a roupa lavada.

Se existe uma solução para essa situação, ela está na conscientização coletiva. Os mecanismos para que isso ocorra estão aí, florescendo, através de movimentos feministas e de atitudes individuais que se comprometem a não perpetuar frutos podres do passado.

6 comentários:

  1. Muito interessante esse ponto de vista.
    Lembro-me várias vezes em que minha mãe me colocava pra lavar a louça e meu irmão ficava jogando video game, e quando eu protestava minha mãe dizia: Ele é homem, você é mulher.
    Meu irmão sempre teve os cursos e estudos que quis, e nunca se formou ou terminou nenhum. Eu, provavelmente, serei a única da família a ter a oportunidade de me formar futuramente (assim espero, rs)

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    1. Pois então Dry, isso se repete em muitas famílias! Tem gente que pensa que isso é coisa do passado e que participar das tarefas domésticas é só para quem (como se fossem poucos) não tem condições de pagar uma doméstica, mas essa é uma visão de um pequeno grupo de privilegiados que podem bancar esse luxo.

      E quando casais heterossexuais passam a morar juntos, é comum que muitos homens esperem da namorada/esposa o que estava habituado a receber de sua mãe.

      Obrigado pelo comentário! Abraço

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  2. Ótimo post!
    Pra mim essa é uma parte do machismo das mais difíceis, porque é muito invisível, as desigualdades absorvidas, "naturais", tanto pelos homens quanto pelas próprias mulheres, um grande tabu mesmo. E além disso se enreda em preconceitos de classe e de raça também... É muito importante contar com a consciência de homens sobre isso, então obrigada :)

    Segunda-feira vi um filme muito bom que perpassa um pouco esse assunto: A fonte das mulheres (http://www.youtube.com/watch?v=cw_j6zXcGvg)

    vale ver! :)

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    1. Obrigado!

      Eu vi o trailer e achei interessante. Assim que der eu vou assistir o filme :)

      Mas então, eu vejo isso cotidianamente, então nem imagino como deve ser para vocês terem que lidar com isso, pois certos padrões são tidos como algo natural do comportamento feminino, inclusive por muitas mulheres, então deve ser bastante opressivo.

      Abraço!

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  3. Oi, Fernando, tudo bem? Sempre pontuo essas coisas com meus alunos na aula de Questão de Gênero no Brasil na graduação em Serviço Social. Uso exemplos cotidianos para mostrar como o gênero é uma construção social e que nós podemos mudar os padrões que não gostamos, com persistência e paciência. Posso levar seu post pra sala de aula? Com devidas referências, claro! Um abraço!

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    1. Oi, tudo bem sim.
      Então, fique à vontade para levar o post para as suas aulas. Fico feliz em poder colaborar :)

      Abraço!

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