sexta-feira, 6 de julho de 2012

Strip-tease e Prostituição - Entrevista com Luna

Todas as imagens do post foram escolhidas pela Luna e retiradas da internet
O blog nunca teve um post que consistisse numa entrevista, mas achei que seria interessante. A princípio seria um Guest Post, mas a Luna sugeriu o formato de entrevista e eu gostei da ideia.

Luna era o nome que a entrevistada usava no trabalho e não é seu nome real. Ela é uma mulher como outra qualquer, com anseios e metas. Não é diferente de qualquer amiga que você tenha conhecido no colégio ou faculdade.

Outro detalhe é que qualquer um que trabalhe fazendo pesquisas, entrevistas e grupos focais, sabe que uma entrevista deve ser realizada por uma pessoa que o entrevistado não conheça, para evitar que as respostas sejam influenciadas, mas como se trata de algo mais informal, não vejo problema algum.

Também quero ressaltar que não tenho intenção de enaltecer ou criticar o trabalho como stripper ou prostituta (não que exista alguma relação direta) e o objetivo aqui é apenas expor a entrevista. Claro que a prostituição infantil e tráfico de mulheres devem ser duramente combatidos, mas quando a decisão de trabalhar nesse mercado parte única e exclusivamente da mulher, sem qualquer pressão externa, não vejo nada de errado. E não acredito que uma mulher seja melhor ou pior por trabalhar nessa área.

A entrevista está abaixo. Fiquem à vontade para comentar.

Por que o nome “Luna”?

No começo eu preferia que fosse Isa, mas não deixaram. Diziam que Isa era muito "fraquinho" e que não ia chamar atenção. Depois Elise, mas também disseram não. Então eu disse "coloca Luna, que eu vou pensar em outro nome amanhã", e gostaram.

De onde surgiu a ideia de fazer strip-tease?

Foi um pouco de tudo, desilusão amorosa, aventura, dinheiro. A ideia surgiu na verdade quando eu tinha uns 18 anos e vi um anúncio em uma revista prometendo 10 mil dólares mensais ou até mais, mas logo tirei isso da minha cabeça. Desde aquela época aconteceu muita coisa. Tive um relacionamento que partiu meu coração e gastei todas as minhas economias com essa pessoa. Então fiz o que toda mulher faz, me enchi de chocolate e sorvete até acalmar. Depois resolvi me aventurar; eu estava com 21 anos quando eu tomei coragem.

Se aventurar de que forma?

"Aventura" é apenas um apelido que eu dei pra época que trabalhei como stripper e foi mesmo uma grande aventura. Eu me aventurei conhecendo muitas pessoas, de muitos países, de muitos costumes e, claro, muito dinheiro.

Você disse que a possibilidade de trabalhar com strip-tease surgiu através de um anúncio numa revista, mas esse anúncio foi a porta de entrada nessa profissão?

Primeiro eu olhei a revista... Tive a ideia, mas desconsiderei imediatamente, aí depois de um tempo, quando as coisas apertaram, eu liguei lá. Liguei, marquei um encontro e acabei não tendo coragem pra ir. Nessa época eu trabalhava em uma balada e depois de um tempo conheci o dono do clube de stripper, que acabou me convencendo a fazer uma visita. Eu fui, visitei e me encantei com a primeira impressão. Comecei a trabalhar no mesmo dia com a ajuda das outras meninas.

O anúncio dizia que havia possibilidade de se ganhar até 10 mil dólares por mês. Você estava aqui no Brasil nessa época?

Não, eu completei quase todos os estudos no exterior e foi assim que tive contato. Quando eu li esse anúncio eu tinha 18 anos e nessa época as dançarinas que trabalhavam lá ganhavam até 40 mil dólares, pois não tinha o problema da crise [econômica], os clientes gastavam bem mais e sem preocupação. Eu entrei lá depois da crise e na verdade nunca cheguei a ganhar tudo isso.

O que passou pela sua mente nesse processo entre fazer essa escolha e começar a exercê-la?

Primeiro eu pensei no quanto eu achava que uma stripper não tinha valor, no quanto elas eram sujas. Eu achava isso e coisas muito piores; achava que se vendiam e que eu estava prestes a me tornar uma, então comecei a pensar diferente...

... tipo, "eu não preciso ser como elas", "eu posso ser diferente", "eu posso dançar e me valorizar ao mesmo tempo", "eu posso conquistá-los sem que eu precise me rebaixar".

Quando digo diferente, falo no modo de agir. As meninas agiam como se fossem ninfomaníacas, embora não fossem; eu agia como se fosse uma artista, uma lady (risos). Eles tentavam pegar nos meus seios e bunda e eu os parava, tentando ser o mais gentil possível. Se eles me dessem 50 dólares, eu pensava, “ah tudo bem”, e não passavam mais do que alguns segundos até que eles fossem conquistados e pagassem por uma dança particular.

E depois vi que algumas mulheres ali pensavam da mesma forma que eu.

Então a princípio você não pretendia fazer strip-tease, mas apenas dança sensual? É assim que se diz? Dança sensual.

A regra desde o começo era subir no palco e tirar a roupa, sensualmente, menos a calcinha.

A regra geral era tirar tudo, menos a calcinha, ou você que estipulou essa regra para si mesma?

Não, era regra da "casa".

Você disse que inicialmente achava isso baixo. Então o que a motivou a continuar e posteriormente mudar de ideia?

Muitas coisas. O dinheiro ajuda a continuar, e muito, ainda mais quando você precisa. Conforme eu via meu salário eu pensava "é aqui que vou ficar esse ano e aqui que começarei a juntar meu dinheiro de novo". As amigas que arrumei me motivaram, porque éramos um time e eu me sentia fazendo parte de alguma coisa.  Meu sonho de ter meu dinheiro, meu AP [apartamento], um carro, era imenso e não media esforço pra conseguir. E minha mãe me apoiava.  Isso tudo me fazia continuar.

Como você se sentia quando estava no palco dançando?

A primeira vez eu me senti horrível, tanto que torci meu pé cinco vezes; comecei a me julgar, pensar muitas coisas e fui para o banheiro chorar. Veio uma das brasileiras e disse que nesse trabalho eu deveria ser duas pessoas: uma que se magoa com o que está fazendo e outra que se sente orgulhosa e não liga pra nada que os outros pensam. 

Então eu tive que ser duas pessoas em uma, tive que ser eu de dia, e a Luna de noite. Mas foi apenas pra me ajudar a me acalmar no palco. Conforme o tempo foi passando eu fui me sentindo melhor e comecei a gostar das pessoas admirando a minha beleza, minhas curvas, meu corpo. Comecei a gostar de ver alguns homens deixando as outras dançarinas falarem sozinhas porque estavam hipnotizados comigo. Depois de algum tempo eu comecei a me sentir maravilhosamente bem dançando.

Você me disse que desenvolveu certo asco por homens e que, inclusive, teve suas primeiras experiências sexuais com mulheres durante esse período. Pode falar um pouco sobre isso?

Acho que homem se tornou uma figura desinteressante pra mim, pois eu já sabia exatamente o que iriam falar, fazer, propor ou pedir. Tornaram-se muito previsíveis, e o fato de eu conhecer homens diferentes todos os dias, deixar que me tocassem todos os dias, isso foi me cansando, me estressando, tanto a ponto de eu não me interessar mais por eles.

A Luna deveria se interessar por homens, melhor, pelo dinheiro deles, mas não eu. Então aos poucos começou a despertar desejos por mulheres até eu ter a minha primeira experiência.

O sonho de todo homem é ver duas mulheres se beijando, beijar duas mulheres de uma vez, ou dormir com elas, então muitos homens nos pagava para fazer isso. Um dia eu topei porque era uma amiga minha que estava se tornando muito próxima, e depois que descobrimos a facilidade que tínhamos em fazer nossos clientes gastarem se nos beijássemos, se tornou bem frequente.

Com o tempo ela se confessou bissexual e eu nem liguei, beijava mesmo. Um dia, conversando e bebendo, acabei chamando ela pra minha casa, porque ela estava sem condições de dirigir, e acabou rolando, foi bom.


Não é todo brasileiro que tem a possibilidade de estudar e viver no exterior. Daí se pressupõe uma condição financeira mais confortável. Era o seu caso?

Sim, mas depois da crise econômica muita coisa mudou, o salário abaixou mais de 20% e o emprego diminuiu. Antes eu trabalhava de 12 a 14 horas por dias e ganhava dinheiro apenas para me manter, então vi a minha vida se tornar cada vez mais difícil financeiramente.


Engraçado que sua mãe tenha te apoiado. Não sou especialista no assunto, mas imagino que essa não seja a atitude mais comum. O que sua mãe achou de tudo isso? Outros familiares também sabem?    

Antes de começar a trabalhar com isso eu cheguei na minha mãe e expliquei que tenho meus sonhos e que se ela não tem como me dar uma vida melhor, eu precisava correr atrás. Então pedi a permissão dela e ela me respondeu: "Filha, desculpa por não dar o que você merece, mas eu a apoio e só te peço que não faça carreira nesse lugar". 

Quero que entenda que a minha mãe me apoiou, mas nunca gostou de eu estar ali e se sentia culpada por não poder me dar as coisas que eu tanto queria. De forma alguma a culpo, ela sempre me deu tudo que eu pedi, mas chegou uma hora na vida que senti que deveria parar de depender 100% dela.  Além da minha mãe, só uma tia sabe e ela é a pessoa que mais me apoiou e ainda me disse que ela deveria ter tido minha coragem quando tinha a minha idade.

Como era a sua rotina nessa “casa”? Qual o nome certo? Bar, balada, casa de strip-tease?

Gentlemen’s Club. Entrávamos às 8h PM e às 9h PM tínhamos que estar preparadas para dançar. O Clube oferecia aula de pole dance grátis, mas não era obrigatório. Eu só fiz as aulas pra melhorar meu desempenho.

Subíamos no palco de 5 à 6 vezes por noite e cada menina dançava duas musicas e a roupa era tirada na segunda. A pior parte da rotina era beber álcool, porque ganhávamos comissão pelas garrafas de champagne e às vezes o cliente pedia cinco ou seis garrafas, mas caso ficássemos muito bêbadas, o staff nos levava pra casa. Ou ganhávamos um prato de comida grátis (risos).

O cliente podia escolher a garota que quisesse, podendo ela recusar, saindo da mesa, caso ele não gastasse muito (era regra da casa, mas a culpa era sempre nossa quando o cliente não queria gastar). Então caso o cliente viesse perguntar da menina, o staff dizia, "a garota não quer ficar, porque ela ficou muito chateada que o senhor não quer gastar com ela, e ela depende disso pra viver e bla bla bla". Na verdade eu nem ligava (risos).

Tem o Table Dance, que era a dança na mesa, e o Private Dance, que era dança privada, só a garota e o cliente.

Como eram os clientes?

Tinha todos os tipos de clientes e é difícil falar só de um. Tinha os românticos, os fiéis, os carentes, os solteiros, os enrolados, os que tinham fetiches e os pervertidos. A maioria deles eram casados, ricos, com filhos e esposas; muitas vezes me mostravam fotos da família e diziam que os amava. Eu não questionava "então por que está aqui?," jamais. Se despertasse um sentimento de culpa ele poderia ir embora com o dinheiro que eu ganharia naquela noite, então eu apenas mudava de assunto, mas antes dizia que ele tinha uma bela família. 

Quanto você ganhava semanalmente fazendo as danças e entretendo os clientes?

De 1 mil a 2 mil dólares por semana. A gorjeta dependia muito do desempenho das meninas e do cliente dela. Uma vez m cliente chegou a colocar um maço de dinheiro com 4 mil dólares na mão de uma das dançarinas. Eu já fiz meu melhor cliente gastar 10 mil dólares em uma noite. E há muitas outras histórias incluindo cliente, dinheiro, mesmo sem sexo.


Você me disse que recusava qualquer proposta que envolvesse prostituição e que quando um cliente insistia você estipulava um valor alto, como 10 mil dólares. O que te fez ceder?

Primeiro que ele [o cliente] era lindo, um senhor muito charmoso, como em filmes. Segundo que ele era irresistivelmente encantador, do tipo que abria a porta do carro e do restaurante. Terceiro que eu gostava dele, de como me tratava e me respeitava. E por último ele ia pagar o que eu pedi.  Meu “preço” era sempre 10 mil dólares, mas ninguém paga essa quantia, então chegamos a um acordo de 5 mil dólares.

Você se sentia objetificada ou tratada como um produto?


Em épocas de TPM sim (risos). Tinha clientes que me rebaixavam, xingavam, condenavam, mas eu os deixava falando sozinhos. E tinha clientes que me respeitavam, me entendiam, me ajudavam e com esses eu nunca me senti um objeto e nunca fui tratada como um produto, então eu acho que depende do modo como a pessoa te trata e como ela faz você se sentir. Já me senti como objeto por me oferecerem em uma despedida de solteiro. Já me trataram como produto, mas nesse trabalho temos que ser boas atrizes e não levar a sério certas pessoas.

Eu sempre levei na esportiva todas as piadas e, quando tentavam me magoar, eu sempre respondia a altura mas com muito humor, e assim eu ia conquistando meus clientes.

Você se prostituiu mais vezes?


Já tive namorados que eram clientes, mas aceitar dinheiro para fazer sexo foi só uma vez.

Por quanto tempo você trabalhou como stripper e qual é a sua avaliação de tudo isso agora que já passou?

Trabalhei um ano como stripper. Foi satisfatório... Porque lá você nunca está 100% contente ou 100% triste, é sempre meio termo, para tudo. Teve mágoas, lágrimas, estresse, mas também me diverti e fiz amizades.

Por que você resolveu sair?

Eu arrumei um namorado e apenas quis respeitá-lo.

Você se arrepende de algo?

Eu me arrependeria se meu pai descobrisse e morresse sem me perdoar. Se isso acontecesse eu me arrependeria de cada segundo que estive naquele lugar.


Deixo aqui meu agradecimento para a Luna, que abriu mão de um tempo imenso para responder essas perguntas. Muito obrigado!  

3 comentários:

  1. Nossa, que coragem!!
    Essa entrevista me deixou sem palavras.
    Eu não vou julgar ninguém pelos seus atos, mas eu não acho que trabalhar assim seja mesmo necessário, mas não nego o quanto admiro a coragem dessa mulher.

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    1. Também não julgo. Cada um faz suas próprias escolhas e decide seus caminhos. Obrigado pelo comentário! :)

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