segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Aborto - Argumentos a favor da descriminalização

Não há necessidade de aborto, mas sim de investimentos em educação, em saúde e em garantir que a informação sobre métodos anticoncepcionais cheguem a todas as pessoas, bem como o fornecimento dos mesmos. E mesmo quando ultrapassado esse estágio e a mulher já estiver numa gravidez indesejada, garantir que existam meios para que ela consiga criar a filha(o) ou então que instituições governamentais tomem para si esta função (quando a mãe assim preferir) ou então que se certifiquem de que outra família adote esta criança.” – Muito bonitinho e ponderado, não é? É o argumento que boa parte dos mais moderados utiliza ao se opor ao aborto. E acho importante para a discussão que esse pensamento seja desconstruído e que se evidencie o que está por trás. Afinal, o que está por trás de todo esse malabarismo que é feito para se opor ao aborto?

É verdade que mesmo atualmente, séc. XXI existem pessoas no Brasil (e não são tão poucas assim) que desconhecem métodos contraceptivos ou possuem apenas uma vaga ideia sobre eles. Afinal, ainda há famílias no país cuja principal fonte de “alimentação” é a garapa, bebida composta de água e açúcar. Se o acesso a arroz e feijão é um luxo para alguns, imagine então camisinha e pílulas anticoncepcionais. Outro fator importante é a conscientização dos jovens, homens e mulheres, que muitas vezes deixam de usar camisinha, em geral por insistência do homem.

Então sim, investimentos em educação, saúde e campanhas informativas são de extrema importância e devem estar sempre presentes. É mais ou menos até aqui que os moderados vão. É importante ressaltar que, dentre esses que chamo de moderados contra o aborto, são pouquíssimos os que adotam essa posição pelos motivos que declaram. Na maioria dos casos os argumentos utilizados são apenas subterfúgios para se esquivar e desviar a atenção quanto ao real motivo de suas posições. Com algum nível de contestação é possível fazer com que eles entreguem suas contradições, mas nesse ponto todos já estão desesperados para mudar para algum assunto mais ameno. Mas será que com essas informações nós já conseguimos construir um cenário realmente representativo? A resposta é não.

Que mulheres fazem aborto no Brasil? Qual o perfil? Sem qualquer conhecimento prévio e lendo apenas esses três primeiros parágrafos, a minha resposta seria que são mulheres pobres, com baixa ou nenhuma escolaridade e nas quais os esforços do governo federal, estados e prefeituras em levar informação não surtem efeito. E eu estaria redondamente enganado.

As pessoas parecem dispostas a colocar suas opiniões sobre o assunto, mas na maioria das vezes elas se julgam distantes daquilo que falam. E na maioria das vezes, especialmente quando essas pessoas são contra a descriminalização, o que se percebe é uma intensa ausência de empatia. Isso sem falar dos que realmente acreditam que mulheres que abortam devem ser presas ou, então, que merecem morrer. Esse indivíduo nem desconfia que a namorada já realizou um aborto, ou que a irmã está considerando seriamente a possibilidade. Ou até mesmo que a sua própria mãe, anos antes de tê-lo, também o fez. Por ser um tabu, é comum que esta realidade pareça distante, quando na verdade não é. E exatamente por parecer assim, é mais difícil sentir empatia, mais difícil se importar. Será que é preciso mostrar que não são apenas negras e pobres que sofrem para que alguma centelha de compaixão possa surgir?

A brasileira que aborta é casada, tem entre 20 e 29 anos, com até 8 anos de escolaridade, trabalha, tem pelo menos um filho, é católica e faz uso de métodos contraceptivos. Esse é o perfil. O aborto realizado por adolescentes representam menos de 10% do total e, mesmo assim, essas adolescentes em geral também estão em uma união estável e tomam essa decisão junto com seus parceiros. Essas informações, que trazem um grande abalo no estereótipo e senso comum, é fruto de um estudo realizado pela UNB (Universidade de Brasília) e UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) com apoio do Ministério da Saúde

“Apenas entre 9,5% e 29,2% de todas as mulheres que abortam não tinham filhos, um dado que leva muitos estudos a inferir que o aborto é um instrumento de planejamento reprodutivo importante para as mulheres com filhos quando os métodos contraceptivos falham ou não são utilizados adequadamente. Quando os estudos segmentam segundo faixa etária e número de filhos, as adolescentes compõem o grupo que menos induz o aborto.” – (Aborto e Saúde Pública – UNB;UERJ)

Então o discurso lá do primeiro parágrafo já perde grande parte de sua credibilidade. Ainda há a questão da possibilidade de a mãe confiar a criação do seu filho a um orfanato ou à outra família. Mas e se ela não quiser lidar durante nove meses com uma gestação? E se ela não quiser parir um filho? E se ela não quiser entregar o filho para adoção? E se ela simplesmente não quiser ter um filho? Será que nada disso importa? Por que não interromper a gravidez?

E é aqui que finalmente percebemos o que está por trás do malabarismo argumentativo dos que se contorcem de todas as maneiras ao se opor ao aborto. E ainda nem entramos na questão da mortalidade materna decorrente de abortos mal realizados e do fato dos abortos continuarem existindo independente de sua descriminalização. Mas falaremos sobre isso um pouco mais pra frente.

"Você pode e tem o direito assegurado pela Constituição de acreditar no que quiser, professar a fé que bem entender ou não ter fé nenhuma. O que ninguém deveria poder – seja candidato a presidente ou cidadão – é ignorar a morte de seres humanos. Todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que as mulheres mais ricas procuram boas clínicas e abortam em segurança. E todos nós, que não somos hipócritas, sabemos que são as mulheres mais pobres que morrem em procedimentos clandestinos, porque não têm dinheiro para pagar as boas clínicas." - Eliane Brum

O que está por trás é a noção de que o aborto é ERRADO. Essa noção pode ser proveniente de crenças religiosas, de uma compreensão própria do que é certo ou não, de um entendimento individual de quando começa a vida (para muitos, o momento da concepção) e a influência da igreja católica e evangélica certamente possuem um peso muito forte. O que os mais moderados fazem é evitar dizer “isso é pecado”, “o embrião/feto tem uma alma” ou “isso é errado”, pois sabem que tudo isso é absolutamente subjetivo e, além disso, que vivemos num país pretensamente laico.

No Brasil, segundo a lei, o Estado é laico. Estado laico não significa só que a instituição Igreja não pode controlar a instituição Estado. Significa que as decisões do Estado não podem ser pautadas por valores, preceitos e crenças religiosas. Quando os representantes eleitos (cargos executivos como presidência ou prefeitura; ou legislativos como vereadores e senadores) tratam a questão do aborto definindo “vida” segundo os valores cristãos, como uma dádiva a ser preservada não importa as circunstâncias estão, na verdade, infringindo a lei.” - Marília Moschkovich

A forma como a sociedade encara a mulher e seu corpo também é determinante. Costumam dizer que o aborto nunca teria sido crime se os homens engravidassem. Você duvida? É por isso que o aborto é pauta permanente nos movimentos feministas, pois está diretamente ligado com a autonomia sobre o próprio corpo, com liberdade de escolha e de decidir o que é melhor para si, independente de intervenções externas.

Vale ressaltar que no Brasil o aborto é tido como questão de polícia e não como de saúde pública, negligenciando o fato de que uma das principais causas de mortalidade materna é decorrente de abortos realizados de forma incorreta, insalubre e de alto risco.

Negligenciando também o fato de que são realizados, de acordo com dados do SUS (Sistema Único de Saúde), cerca de 1,5 milhão de abortos por ano (alguns estimam que seja mais que o dobro).

“É hipocrisia sim, não tem outra palavra. A sociedade que condena o aborto é a mesma que finge não ver que uma em cada quatro gestações acaba em aborto espontâneo.” - Lola Aronovich

Até aqui eu falei principalmente dos mais moderados, mas sabemos que esse não é o caso de todas as pessoas. Muitos defendem prisão (que realmente pode acontecer, às vezes até decorrente de denúncia por parte do médico que atendeu a paciente) e até pena de morte. Novamente a ausência de empatia, prova definitiva que o tabu precisa ser quebrado e o diálogo verdadeiro instaurado.

“A brasileira média que aborta tem 25 anos, é casada, católica, e já é mãe (pense em quem você está condenando à prisão ou à pena de morte). Mas a brasileira média que morre de aborto clandestino é pobre e negra. Aquela que não pode pagar por uma clínica com as mínimas condições de higiene.” - Lola Aronovich

Outro ponto recorrente é o que afirma que a mulher, quando está grávida, perde sua capacidade plena de julgar bem a situação, seja por conta dos hormônios, estresse ou por transtorno mental temporário e, por conta disso, não deve ser dada a ela a autonomia para tomar decisões consideradas “drásticas”, ou seja, novamente a tentativa de deslegitimar a capacidade da mulher e sua autonomia. Lembrando que não existe qualquer pesquisa que indique essa incapacidade temporária de fazer julgamentos e tomar decisões.

Para terminar, cito o famoso “o Brasil não está preparado para isso. Tem gente morrendo nas filas do SUS”. Das falácias argumentativas, essa é uma das piores. Enquanto alguns conceitos são abstratos (onde começa a vida) e passíveis de diversas interpretações, não existe nada de abstrato na vida das mulheres. E muitas delas, especialmente as mais pobres, estão de fato morrendo. E o que nós estamos fazendo sobre isso?

“Dizer que o SUS não poderia arcar com o procedimento caso fosse descriminalizado não funciona, uma vez que são realizadas 250 mil internações para curetagem por ano, quase todas decorrentes de abortos malfeitos, um custo de 30 milhões de reais.” - Médico Thomaz Rafael Gollop

 [Você também pode ler o post em que fiz uma síntese dos principais argumentos utilizados contra a realização do aborto: “Aborto - Argumentos Contra”.]

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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

No Fim da Infância


Sinais de que a infância estava chegando ao fim

Lembro muito bem de ver meus bonecos e me sentir bem por saber que eles representavam todo um mundo para o qual eu podia fugir quando achasse necessário. Sabia que poderia simplesmente juntá-los e arquitetar alguma história de lutas, batalhas e superação. Mas também me lembro de como isso foi gradativamente deixando de ser tão legal.  Eu realmente ficava preocupado: “Que vida será essa em que brincar com meus bonecos não será divertido?”. E eu me enganava quando concluía que estava apenas passando por uma fase, e que o desejo de brincar nunca desapareceria por completo. Bom, desapareceu.

Ao mesmo tempo, alguns elementos traziam consigo um indicativo do que era a vida dos adultos: um copo de vidro, manchado com a cor característica do resto de café frio em seu fundo e seu gosto amargo e pouco atrativo. Essa imagem era para mim uma marca intensa da estafa. Olheiras profundas no rosto da mãe que chegava em casa após o trabalho exaustivo. Cartas que logo ao serem entregues despertavam reclamações sobre as infindáveis contas a pagar.

Não que eu tivesse uma opinião definida sobre ser adulto, afinal nessa época eu apenas nutria vagas idealizações sobre minha futura profissão. Quando ainda mais novo essas idealizações oscilavam entre ser escritor, vendedor de cachorro quente e jogador de basquete. Mas o que importa é que o universo dos "crescidos" não me despertava grandes interesses, pelo contrário.

E, no entanto, lá estava eu me esforçando para fazer aqueles brinquedos e objetos em minhas mãos retomarem a vida que outrora tiveram.

                                                             *** 
Um mundo de luz e paz convertera-se num antro de desolação, escuridão e terror. Surgia então o grande herói, que, embora não estivesse certo de suas capacidades, enfrentaria todos os obstáculos e desafios para provar seu valor e livrar as pobres almas de seu sofrimento ininterrupto.  A era dos grandes vilões estava com seus dias contados. 

Era mais ou menos assim que a maiorias das aventuras se iniciavam. Elas podiam se estender por minutos, horas e até dias. Podiam ser reencenadas e finais alternativos não faltavam. Todos os meus heróis inevitavelmente cediam em algum ponto, caindo ante novos senhores da maldade infinita, apenas para abrir lugar para um novo chosen one. Pode não ser a coisa mais saudável, mas muitos dos meus bonecos encontravam seu fim no fogo, congelamento ou desmembramento. Este último em geral acontecia nas garras de um dos maiores vilões da minha infância, que na verdade era um alicate que minha mãe usava para podar as plantas. O martelo também era um vilão importante e recorrente nas minhas tramas. Não me entendam mal, eu não era um equivalente do Sid, o menino malvado de Toy Story. Eu apenas acreditava que meus heróis mereciam finais dignos.

À medida que o tempo foi passando, a Terra do Medo cedeu lugar ao espaço debaixo da cama, o Mar Revoltoso aos poucos foi se transformando no tanquinho de lavar roupa, o Pico da Morte, na janela. Meu herói era cada vez mais um boneco, e não caminhava pelos terrenos assombrosos dos povos que precisava salvar, mas era carregado por minhas mãos de um ponto ao outro do quarto. Algo mudava dentro de mim, esse algo morria, adormecia? O que sei é que o reino de Fantasia desmoronava e não havia um Bastian para salvá-lo. Tampouco uma chave mágica que pudesse devolver a vida aos meus brinquedos.

Guardados nas caixas e armários, alguns perdidos pela casa e outros doados, em algum ponto todos perderam a minha atenção e não havia estímulo que me animasse a tirá-los da poeira. E por mais que a nostalgia e o saudosismo nos faça olhar para trás com carinho e saudade, esse tempo passou. Não havia uma Terra do Nunca que nos mantivesse eternamente criança. E se fosse possível, seria mesmo uma boa opção?

Depois de todo esse drama, a verdade é que a imaginação não morre, não necessariamente. A maneira como a exercitamos que se torna mais sofisticada, assim como o refúgio que ela pode representar. Escrever e ler, por exemplo, é o “brincar de bonecos” depois de crescido.

Imagem - filme Toy Story 3
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terça-feira, 16 de julho de 2013

Uma Mensagem do Passado

Escrever mensagens para o futuro não é exatamente a coisa mais original já pensada, mas desde tempos imemoriais isso é feito. As motivações são várias e, no meu caso, a inspiração veio de um filme chamado Alta Frequência, de 2000. Nele, um filho conversa com o pai (falecido há muito tempo) no passado, através de um aparelho de radioamador. Foi absolutamente fascinante ver as personagens se comunicando em tempos distintos. E no caso o que viajava no tempo eram as ondas de rádio. Em uma cena o protagonista conversa com uma criança e logo percebe ser ele mesmo. 

Filme: Alta Frequência

Antes de a história chegar ao fim já me indagava o que eu diria a mim mesmo no presente de então para o futuro se tivesse essa oportunidade. Estava com meus 13 anos quando escrevi a minha mensagem. Naquela época eu tinha um computador velho e que servia apenas para três coisas: jogar Super Mário, desenhar no Paint e escrever num programa chamado Write. Internet foi uma coisa que o coitado nunca viu, pelo menos não enquanto esteve na minha casa, já que o ganhei usado. Então me sentei diante do computador e escrevi a mensagem que deixo abaixo. 


Oi, eu sou o Luiz Fernando Borges.
Essa mensagem é para mim mesmo do ano de 2002, dia 23 do 03.
Essa é uma mensagem para me confortar quando eu for adulto. Bem, se eu tiver virado um escritor, parabéns, se não, espero que você tenha se esforçado ao Máximo.

Se você fuma, pare com isso agora, é uma ordem de você mesmo, e não dê risada, é muito sério. Se você bebe, pare com isso agora, por que se eu bebo no futuro espero que essa mensagem sirva de alguma coisa. 

Espero que o seu ou o meu (tanto faz) segundo trabalho seja bom. Porque você deve saber que além de escritor, eu quero ter outro trabalho. 

Eu, ou melhor, você, já deve ter lido o 5°, 6° e o 7° livros do Harry Potter e obviamente também deve ter visto o filme, espero que tenham sido bons.

Quanto ao Leandro, o meu melhor amigo, espero que ele esteja bem e espero ainda ser amigo dele. Quanto a minha mãe, espero que ela tenha conseguido a casa pela qual tanto está lutando, tomara que ela esteja bem com a vida e sem preocupações.  

A minha irmã, espero que ela não seja tão chata como é atualmente. Tiago, o meu melhor amigo de Minas, tomara que ele tenha virado algo na vida. Quero que todos estejam bem. Eu já vou desligar o computador, ah, quase que esqueço, se eu algum dia ler novamente esta mensagem, e se eu já tiver uma mulher, fale que estou mandando um beijo para ela e pra minha mãe também e pra minha vó e pros meus tios e pra minhas tias, pros meus primos, resumindo, BEIJOS PARA TODO MUNDO. 

Agora sim vou desligar o computador, são exatamente 23 horas e 55 minutos e eu preciso dormir e minha irmã já tá reclamando lá no outro quarto. 

                                                                     TCHAU. BEIJOS.
                                          ATÉ O FUTURO.

Muito fofo, eu sei.
É incrível constatar como as coisas mudam. Reler o texto é como voltar para aquele dia e sentir o que eu sentia naquela época. Não é apenas olhar para o passado, mas é como estar lá novamente. E quando leio esse texto eu me lembro das minhas expectativas, das minhas idealizações e dos meus medos. 

Desde muito cedo eu adquiri o hábito de escrever e é isso que explica o desejo de ser um escritor. E como todos ao meu redor diziam que ser escritor não dava dinheiro, eu decidi que teria duas profissões, mas escrever seria a principal. As coisas não correram exatamente assim... O gosto pela escrita perdura até hoje, mas não sei como ele reagiria se eu lhe explicasse o conceito de “blog”. 

Fica bastante clara a minha aversão a bebidas alcoólicas e a cigarro. O cigarro era uma constante fonte de preocupação, já que a minha mãe fumava dois maços por dia e eu temia que isso fosse lhe fazer mal. A boa notícia é que ela parou de fumar, depois de mais de 30 anos. Sobre bebidas, a minha percepção era a de que todas elas possuíam a capacidade de tornar qualquer um num verdadeiro imbecil. Tios alcoólatras corroboravam com essa minha ideia. Aliás, uma vez fui pendurado pelo calcanhar no alpendre da casa da minha avó. Claro que o tio que fez isso estava caindo de bêbado. Pelo menos eu não caí.

Muito se falou sobre Geração Coca Cola, mas eu sou Geração Harry Potter. Cresci lendo os livros e o primeiro filme que assisti no cinema foi HP e a Pedra Filosofal. Lembro-me muito bem de ter assistido no Cine Belas Artes, cinema clássico de São Paulo e que hoje está fechado e vandalizado.

Cine Belas Artes - São Paulo
Embora morássemos num bairro nobre de São Paulo (Vila Madalena), a casa era muito pequena (antes da reforma ela consistia em um quarto e uma cozinha), de forma que até uma kitinet tabajara era maior, e eu podia sentir muito bem o sonho da minha mãe de morar num lugar melhor e mais confortável.

Convenhamos que mandar mensagem para o futuro é fácil, agora difícil mesmo é enviar uma pro passado. Mas deixando todos os problemas paradoxais de lado e também todas as consequências à lá Efeito Borboleta, o que você faria se pudesse enviar uma carta para a criança que um dia você foi? 

Essa seria a minha: 

Caro Fernando, eu gostaria de dizer tantas coisas, mas estou confiante de que você verá tudo por si mesmo. Se me permite alguns comentários, talvez seja interessante começar a curtir mais as coisas e os momentos. Deixar toda essa tensão constante de lado e respirar fundo.  Preste mais atenção naqueles que estão ao seu redor, seja mais compreensivo e carinhoso com a sua irmã. Eu sei que você a considera absurdamente irritante, mas não precisa ser assim. Muitas vezes a ideia que você faz das pessoas não corresponde ao que elas realmente são.

Nem sempre você tomará as decisões corretas (aliás, posso te adiantar que mesmo aqui no futuro você continua tomando algumas péssimas), então se lembre de que cada uma dessas escolhas terão consequências. Ainda assim, não pense que errar é o fim do mundo, pois não é. Só tente fazer melhor na próxima vez, okay? 

Não sei como serão as coisas daqui a 10 anos (quem sabe?), mas te garanto que os últimos 10 foram incríveis. Muitas coisas tristes aconteceram, sim, isso é inevitável, mas muitas coisas legais e bonitas também. Você encontrará pessoas que te marcarão, fará amigos que estarão ao seu lado em momentos que nunca esquecerá. Mais de uma vez sentirá seu coração acelerar e o fôlego fugir, e algumas vezes isso será correspondido, outras vezes não, mas as coisas são assim mesmo, siga em frente. 

No mais, um grande abraço! 

Obs: Quanto aos amigos que você já tem, saiba que eles não serão menos importantes. E especificamente sobre o Leandro e o Tiago, fique tranquilo que eles estão bem. 

Obs.2: O final de Harry Potter foi uma porcaria, mas o conjunto da obra é bom, então continue lendo.                                                               





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terça-feira, 25 de junho de 2013

As Imagens que Construímos



Numa comparação bastante absurda, mas que faço questão de usar, as pessoas são como os lugares que frequentamos. Lugares que, à primeira vista, são repletos de informações novas e que podem nos fascinar ou assustar. Por mais que existam similaridades, um nunca é idêntico a outro. As ruas, luzes, prédios, casas e a dinâmica possuem suas singularidades. A reação inicial em geral é de estranhamento, ainda que possa vir acompanhada de elementos de familiaridade.

Até que um dia, sem que percebamos, a junção de todos os elementos que antes nos eram estranhos assumem uma composição que se torna comum aos nossos olhos. Dizendo de uma forma mais simples e sucinta, nos acostumamos. 

Quando conhecemos alguém, algo semelhante ocorre. Um sem número de códigos são intencionalmente e involuntariamente expostos, desde os trejeitos até o modo de falar e se comportar. Com o tempo, inevitavelmente criamos uma imagem. E nessa imagem, ou seja, a concepção que fazemos dos indivíduos, sempre há muito de nós mesmos. Os vestimos com nossos conceitos, expectativas, idealizações e preconceitos.


O que vemos neles não é necessariamente o que eles são, mas principalmente uma interpretação que está intrinsecamente ligada ao que somos, de forma que o que cada um percebe pode ser diferente e, conforme mudamos, as pessoas que conhecemos também podem mudar aos nossos olhos. 

É cômodo guardar essas concepções em caixinhas e deixa-las lá, relegadas à negligência, esperando sermos surpreendidos para que apenas então as transformemos em qualquer coisa nova.
 

Abrir os nossos olhos para outros detalhes e observar sob ângulos alternativos aquilo sobre o qual já temos uma ideia definida pode se revelar um exercício construtivo. Aquela menina aborrecida e tristonha de repente parece mais interessante, aquele bar claustrofóbico passa a ser aconchegante e a rua que outrora era apenas uma intermediária entre dois pontos se converte num destino.

Lembro-me da primeira vez que a vi. Por trás de cada expressão, de cada movimento dos braços ao gesticular e de cada olhar, alguns mais demorados, outros mais relutantes, se escondiam mistérios que eu ansiava por conhecer. Após muito tempo ao seu lado esses mistérios, agora códigos desvendados, já possuíam em minha mente um significado próprio. Mas que belo foi perceber que a cada sacudida nas peças, uma nova paisagem se formava no quebra cabeças e também em mim.

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