quarta-feira, 25 de setembro de 2013

No Fim da Infância


Sinais de que a infância estava chegando ao fim

Lembro muito bem de ver meus bonecos e me sentir bem por saber que eles representavam todo um mundo para o qual eu podia fugir quando achasse necessário. Sabia que poderia simplesmente juntá-los e arquitetar alguma história de lutas, batalhas e superação. Mas também me lembro de como isso foi gradativamente deixando de ser tão legal.  Eu realmente ficava preocupado: “Que vida será essa em que brincar com meus bonecos não será divertido?”. E eu me enganava quando concluía que estava apenas passando por uma fase, e que o desejo de brincar nunca desapareceria por completo. Bom, desapareceu.

Ao mesmo tempo, alguns elementos traziam consigo um indicativo do que era a vida dos adultos: um copo de vidro, manchado com a cor característica do resto de café frio em seu fundo e seu gosto amargo e pouco atrativo. Essa imagem era para mim uma marca intensa da estafa. Olheiras profundas no rosto da mãe que chegava em casa após o trabalho exaustivo. Cartas que logo ao serem entregues despertavam reclamações sobre as infindáveis contas a pagar.

Não que eu tivesse uma opinião definida sobre ser adulto, afinal nessa época eu apenas nutria vagas idealizações sobre minha futura profissão. Quando ainda mais novo essas idealizações oscilavam entre ser escritor, vendedor de cachorro quente e jogador de basquete. Mas o que importa é que o universo dos "crescidos" não me despertava grandes interesses, pelo contrário.

E, no entanto, lá estava eu me esforçando para fazer aqueles brinquedos e objetos em minhas mãos retomarem a vida que outrora tiveram.

                                                             *** 
Um mundo de luz e paz convertera-se num antro de desolação, escuridão e terror. Surgia então o grande herói, que, embora não estivesse certo de suas capacidades, enfrentaria todos os obstáculos e desafios para provar seu valor e livrar as pobres almas de seu sofrimento ininterrupto.  A era dos grandes vilões estava com seus dias contados. 

Era mais ou menos assim que a maiorias das aventuras se iniciavam. Elas podiam se estender por minutos, horas e até dias. Podiam ser reencenadas e finais alternativos não faltavam. Todos os meus heróis inevitavelmente cediam em algum ponto, caindo ante novos senhores da maldade infinita, apenas para abrir lugar para um novo chosen one. Pode não ser a coisa mais saudável, mas muitos dos meus bonecos encontravam seu fim no fogo, congelamento ou desmembramento. Este último em geral acontecia nas garras de um dos maiores vilões da minha infância, que na verdade era um alicate que minha mãe usava para podar as plantas. O martelo também era um vilão importante e recorrente nas minhas tramas. Não me entendam mal, eu não era um equivalente do Sid, o menino malvado de Toy Story. Eu apenas acreditava que meus heróis mereciam finais dignos.

À medida que o tempo foi passando, a Terra do Medo cedeu lugar ao espaço debaixo da cama, o Mar Revoltoso aos poucos foi se transformando no tanquinho de lavar roupa, o Pico da Morte, na janela. Meu herói era cada vez mais um boneco, e não caminhava pelos terrenos assombrosos dos povos que precisava salvar, mas era carregado por minhas mãos de um ponto ao outro do quarto. Algo mudava dentro de mim, esse algo morria, adormecia? O que sei é que o reino de Fantasia desmoronava e não havia um Bastian para salvá-lo. Tampouco uma chave mágica que pudesse devolver a vida aos meus brinquedos.

Guardados nas caixas e armários, alguns perdidos pela casa e outros doados, em algum ponto todos perderam a minha atenção e não havia estímulo que me animasse a tirá-los da poeira. E por mais que a nostalgia e o saudosismo nos faça olhar para trás com carinho e saudade, esse tempo passou. Não havia uma Terra do Nunca que nos mantivesse eternamente criança. E se fosse possível, seria mesmo uma boa opção?

Depois de todo esse drama, a verdade é que a imaginação não morre, não necessariamente. A maneira como a exercitamos que se torna mais sofisticada, assim como o refúgio que ela pode representar. Escrever e ler, por exemplo, é o “brincar de bonecos” depois de crescido.

Imagem - filme Toy Story 3
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