quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Medicalização na Saúde Mental

A medicalização social e a medicalização da vida são temas em voga já há bastante tempo, tendo sido intensificado recentemente com o lançamento do novo DSM, no caso, o DSM V, ou como muitos gostam de colocar, a “bíblia dos psiquiatras”. Falar em medicalização da vida também envolve falar em patologização da mesma. E é nesse sentido que o DSM V gera mais polêmica e angaria contra si não apenas a indignação de psicólogos, mas também a desconfiança e até mesmo temor por parte de diversos psiquiatras, uma vez que traz para o seu compêndio uma lista considerável de novos “transtornos mentais”.

A escritora Eliane Brum descreveu bem a sensação de muitos ao escrever um texto intitulado “Acordei Doente Mental”. Segue trecho:


"Descobri que sou doente mental ao conhecer apenas algumas das novas modalidades, que tem sido apresentadas pela imprensa internacional. Tenho quase todas. “Distúrbio de Hoarding”. Tenho. Caracteriza-se pela dificuldade persistente de se desfazer de objetos ou de “lixo”, independentemente de seu valor real. Sou assolada por uma enorme dificuldade de botar coisas fora, de bloquinhos de entrevistas dos anos 90 a sapatos imprestáveis para o uso, o que resulta em acúmulos de caixas pelo apartamento. Remédio pra mim. “Transtorno Disfórico Pré-Menstrual”, que consiste numa TPM mais severa. Culpada. Qualquer um que convive comigo está agora autorizado a me chamar de louca nas duas semanas anteriores à menstruação. Remédio pra mim. “Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica”. A pessoa devora quantidades “excessivas” de comida num período delimitado de até duas horas, pelo menos uma vez por semana, durante três meses ou mais. Certeza que tenho. Bastaria me ver comendo feijão, quando chego a cinco ou seis pratos fundo fácil. Mas, para não ter dúvida, devoro de uma a duas latas de leite condensado por semana, em menos de duas horas, há décadas, enquanto leio um livro igualmente delicioso, num ritual que eu chamava de “momento de felicidade absoluta”, mas que, de fato, agora eu sei, é uma doença mental. Em vez de leite condensado, remédio pra mim."

Artista: Luis Quiles
Ainda que uma ala mais humanizada da psiquiatria busque entender as pessoas para além dos critérios que compõem os DSMs e CIDs, e por mais que a psicologia, com suas variadas vertentes, se empenhe em enxergar os indivíduos como eles de fato o são, indivíduos, e não em esquemas fechados de distúrbios, parece existir uma força que tem como combustível a necessidade de se encaixar em modelos ou rótulos pré-estabelecidos. Força esta alimentada também pela indústria farmacêutica e por profissionais que a respaldam.

E é impossível estudar saúde mental hoje, pelo viés psiquiátrico, e ao menos uma vez não pensar no conto de Machado de Assis, “O Alienista”.

“A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente." (Machado de Assis)

Mas o intuito aqui não é demonizar a psiquiatria (até porque quem vos fala pretende se especializar nessa área), e muito menos fazer crer que medicamentos não são necessários, não, não, a questão na verdade está no uso incorreto ou excessivo de medicamentos, e da necessidade, às vezes com objetivos obscuros, de colocar elementos ordinários da vida no escopo da medicina.

Psicofármacos não podem ser utilizados como se fossem dipirona na gripe, que trata os sintomas até que a gripe se resolva por si só. Os sintomas da mente comumente são elaborações daquilo pelo qual o paciente vivenciou e está vivenciando, sempre em consonância com sua história de vida e singularidades, de maneira que simplesmente “silenciar” esses sintomas não resolve o problema, mas sim os encobre.

O que de forma alguma significa que medicamentos não possam ser uma alternativa adequada, mesmo benzodiazepínicos como o famoso rivotril. Existe também grande ignorância, desinformação e maniqueísmo, como se, por exemplo, fazer uso do famoso prozac (fluexetina) representasse uma submissão ao modo de vida opressor da sociedade pós-revolução industrial. Calma lá, não é assim.

É extremamente importante ressaltar que os tratamentos devem se complementar. E não estou falando de uma conversinha bonitinha de “vamos todos trabalhar juntos”, mas sim de uma necessidade. A terapia medicamentosa sozinha não substitui a terapia realizada com psicólogos (psicanálise, comportamental, cognitivo-comportamental etc.) e outros profissionais, como o terapeuta ocupacional. E nem sempre o medicamento é necessário, mas quando o é, raramente é preconizado que seja a única medida no tratamento do paciente. Em geral o melhor tratamento é aquele feito em conjunto, seja no tratamento da depressão, transtorno bipolar, transtorno do pânico, esquizofrenia etc.

Agora quando cada conjunto de comportamentos que se afastam, ainda que pouco, do padrão, recebem olhares desconfiados daqueles responsáveis por cuidar da saúde mental, e quando cada atitude levemente desviante da “normalidade” acaba por ser inserida num grupo de psicopatologias, todos acabam por se tornarem possíveis candidatos à Casa Verde, sanatório do conto de Machado de Assis.

Difícil saber para onde esse barco se encaminha, mas as consequências já são palpáveis. Consequências já evidenciadas muito bem por obras da literatura e do cinema, sendo interessante citar dois filmes que discutem muito bem essa questão: “Geração Prozac” (Prozac Nation, 2001), adaptação do livro de mesmo nome de Elizabeth Wurtzel, no qual acompanhamos sua vida como recém-universitária que possui muita dificuldade em lidar com os elementos e fatos do cotidiano e da vida, e que a certa altura passa a fazer uso do antidepressivo que está no título do filme.

Outro filme é o “Réquiem Para um Sonho” (Requiem For a Dream, 2000), também adaptação de livro de mesmo nome do escritor Hubert Selby Jr., que mostra a trajetória percorrida por alguns personagens junto às drogas lícitas e ilícitas. Uma das personagens é uma mãe que vai ao médico e recebe como receita um medicamento “para ansiedade” que aos poucos vai corroendo física e mentalmente a mulher que antes era apenas uma mãe comum enfrentando dificuldades.

Encerro então deixando mais um trecho do texto da Eliane Brum:

“E não, eu não acordei doente mental. Só teria acordado se permitisse a uma Bíblia – e a pastores de jaleco – determinar os sentidos que construo para a minha vida.”
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domingo, 18 de maio de 2014

Sob as Estrelas


[Aviso: esse post possui níveis transbordantes de breguice]


Numa época norteada por idealizações, na transição entre a infância e o início da adolescência, era impossível não fantasiar com o primeiro beijo. No ímpeto de tranquilizar meu nervosismo e ansiedade, eu dizia a mim mesmo que não poderia ser muito diferente de beijar a bochecha de alguém, por exemplo. Que grande diferença pode haver? Mas estou me precipitando. Essa história começa mais cedo, anos antes, na minha primeira paixão infantil. Sim, isso mesmo, por mais piegas que possa parecer.

Em uma manhã qualquer, no meio das férias, quando já não diferimos os dias da semana, minha tia me intimou a acompanhá-la até a casa de uma amiga. Não recusei. Quando se está no interior de Minais Gerais, visitar a casa das pessoas significa ser recebido com pães de queijo, leite, café e tudo o mais que possam oferecer, especialmente quando você é uma criança.

A porta de entrada da casa levava direto pra sala e lá, sentada num sofá, estava ela. Penteando seus longos cabelos castanhos e indiferente a tudo. Me pareceu como um anjo, em todo o seu resplendor.

Ainda que com a mesma idade, meninas tendem a ser mais maduras que os garotos, imaginem então quando existem anos de diferença. Através de seus olhos eu provavelmente era apenas mais uma criança que não foi ensinada a não encarar as pessoas e que por algum motivo não possuía força muscular para manter a boca fechada, no sentido literal.

Pra mim mudou tudo, como se algo tivesse acendido em meu peito. Como vivi até aqui sem sentir isso? O que é isso?  Numa idade em que tudo é à flor da pele e em que cada sentimento parece eterno, aquilo foi arrebatador. Minha primeira paixão.

Anos mais tarde, no auge da minha pré-adolescência, outra vez no interior de MG, enquanto o bigode de virgem mal ameaçava aparecer, lá estava eu mais uma vez apaixonado, e pela mesma garota. Um romântico incorrigível.

Voltamos agora para a minha expectativa e ansiedade pré-primeiro beijo, o qual eu não fazia ideia de quando iria acontecer. Em alguns momentos cheguei até a me convencer de que nunca aconteceria. Um ponto de autoestima pra mim!

Alguém me disse, ou li em algum lugar, que beijar era como chupar laranja. Não lembro se meus parentes perguntaram sobre o meu súbito interesse pela fruta, mas encarei como questão séria. Precisava treinar.

Então lá estava eu fugindo dos olhares preocupados dos parentes, que aparentemente temiam algum desenrolar mais problemático da história. Com isso, entendam-se bebês. Será que era esse o motivo da preocupação? Será que era por isso que tentavam nos vigiar, separar? Eu preocupado com o primeiro beijo e eles com gravidez? Não sei. Naquela idade tudo parecia mais dramático do que realmente era.

De qualquer maneira, finalmente estávamos juntos novamente. Sua ausência tornara-se palpável e parecia impossível fechar os olhos e não pensar nela.

Era noite, o céu estava coberto por estrelas (sempre fui fascinado por elas) e estávamos sentados na calçada. Depois de vários minutos de silêncio, numa batalha interna por coragem, levantei meu rosto e olhei em seus olhos, o coração disparado e o ar faltando. Numa voz fraca e insegura: - Posso te beijar?

“Não”. Foi essa a resposta. Meu mundo caiu. As estrelas perderam o brilho (ou talvez eu simplesmente tenha abaixado a cabeça) e mergulhei em mim mesmo, resignado.

Trazendo-me de volta do mar em que tinha afundado e, assim, sem que pudesse me preparar ou mesmo perceber o que estava acontecendo... Senti seu rosto no meu, seus lábios nos meus, repentinamente e sem aviso. Meu primeiro beijo.

Costumo avaliar mentalmente minhas experiências no momento em que elas acontecem. Mas não dessa vez. Não havia qualquer espaço dentro de mim que pudesse fazer qualquer coisa além de sentir aquilo que vibrava dentro de mim. Então é isso a felicidade? Definitivamente não era como beijar a bochecha de alguém.


Imagem: Night Over The Rhone - Vicent Van Gogh 
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