domingo, 18 de maio de 2014

Sob as Estrelas


[Aviso: esse post possui níveis transbordantes de breguice]


Numa época norteada por idealizações, na transição entre a infância e o início da adolescência, era impossível não fantasiar com o primeiro beijo. No ímpeto de tranquilizar meu nervosismo e ansiedade, eu dizia a mim mesmo que não poderia ser muito diferente de beijar a bochecha de alguém, por exemplo. Que grande diferença pode haver? Mas estou me precipitando. Essa história começa mais cedo, anos antes, na minha primeira paixão infantil. Sim, isso mesmo, por mais piegas que possa parecer.

Em uma manhã qualquer, no meio das férias, quando já não diferimos os dias da semana, minha tia me intimou a acompanhá-la até a casa de uma amiga. Não recusei. Quando se está no interior de Minais Gerais, visitar a casa das pessoas significa ser recebido com pães de queijo, leite, café e tudo o mais que possam oferecer, especialmente quando você é uma criança.

A porta de entrada da casa levava direto pra sala e lá, sentada num sofá, estava ela. Penteando seus longos cabelos castanhos e indiferente a tudo. Me pareceu como um anjo, em todo o seu resplendor.

Ainda que com a mesma idade, meninas tendem a ser mais maduras que os garotos, imaginem então quando existem anos de diferença. Através de seus olhos eu provavelmente era apenas mais uma criança que não foi ensinada a não encarar as pessoas e que por algum motivo não possuía força muscular para manter a boca fechada, no sentido literal.

Pra mim mudou tudo, como se algo tivesse acendido em meu peito. Como vivi até aqui sem sentir isso? O que é isso?  Numa idade em que tudo é à flor da pele e em que cada sentimento parece eterno, aquilo foi arrebatador. Minha primeira paixão.

Anos mais tarde, no auge da minha pré-adolescência, outra vez no interior de MG, enquanto o bigode de virgem mal ameaçava aparecer, lá estava eu mais uma vez apaixonado, e pela mesma garota. Um romântico incorrigível.

Voltamos agora para a minha expectativa e ansiedade pré-primeiro beijo, o qual eu não fazia ideia de quando iria acontecer. Em alguns momentos cheguei até a me convencer de que nunca aconteceria. Um ponto de autoestima pra mim!

Alguém me disse, ou li em algum lugar, que beijar era como chupar laranja. Não lembro se meus parentes perguntaram sobre o meu súbito interesse pela fruta, mas encarei como questão séria. Precisava treinar.

Então lá estava eu fugindo dos olhares preocupados dos parentes, que aparentemente temiam algum desenrolar mais problemático da história. Com isso, entendam-se bebês. Será que era esse o motivo da preocupação? Será que era por isso que tentavam nos vigiar, separar? Eu preocupado com o primeiro beijo e eles com gravidez? Não sei. Naquela idade tudo parecia mais dramático do que realmente era.

De qualquer maneira, finalmente estávamos juntos novamente. Sua ausência tornara-se palpável e parecia impossível fechar os olhos e não pensar nela.

Era noite, o céu estava coberto por estrelas (sempre fui fascinado por elas) e estávamos sentados na calçada. Depois de vários minutos de silêncio, numa batalha interna por coragem, levantei meu rosto e olhei em seus olhos, o coração disparado e o ar faltando. Numa voz fraca e insegura: - Posso te beijar?

“Não”. Foi essa a resposta. Meu mundo caiu. As estrelas perderam o brilho (ou talvez eu simplesmente tenha abaixado a cabeça) e mergulhei em mim mesmo, resignado.

Trazendo-me de volta do mar em que tinha afundado e, assim, sem que pudesse me preparar ou mesmo perceber o que estava acontecendo... Senti seu rosto no meu, seus lábios nos meus, repentinamente e sem aviso. Meu primeiro beijo.

Costumo avaliar mentalmente minhas experiências no momento em que elas acontecem. Mas não dessa vez. Não havia qualquer espaço dentro de mim que pudesse fazer qualquer coisa além de sentir aquilo que vibrava dentro de mim. Então é isso a felicidade? Definitivamente não era como beijar a bochecha de alguém.


Imagem: Night Over The Rhone - Vicent Van Gogh 

4 comentários:

  1. Ah, adolescência... lembro como eu ansiava pela experiência do primeiro beijo. ( e não foi muito bom não, ehehhe - o que não fez com que eu desistisse dos sonhos românticos).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, sim! Se o que dizem for verdade, que imediatamente antes de morrer os melhores momentos da nossa vida passam diante dos nossos olhos, esse com certeza será um deles.

      Mas não posso falar o mesmo de outras primeiras vezes rs Mas aí seria pedir demais! hahaha

      Excluir
  2. Você tem sorte.. Um bom primeiro beijo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim. Pra muitos ou é ruim ou simplesmente irrelevante. Pra mim foi especial :)

      Excluir