quinta-feira, 11 de junho de 2015

As Duas Identidades de Jaime Lannister

[Spoilers do 3° Livro]

Jaime, do dia em que nasceu, até o momento em que sua irmã o desprezou (a perda da sua mão da espada no meio do caminho), sempre foi um poço de potencialidades não realizadas e de expectativas alheias, sem nunca realmente agir como o senhor de seu destino.

Primeiro o seu pai, que o via como sucessor, o homem que estaria a frente de Rochedo Casterly, depois Aerys, o Rei Louco, que o transformou em Cavaleiro da Guarda Real (destituindo-o da possibilidade de realizar o desejo do pai), menos por admirá-lo, e mais para provocar Tywin Lannister. Por último, sua alcunha, Regicida, que esmaga, ao menos através dos olhos dos demais, qualquer outro traço que possa possuir.


Para além das expectativas e julgamento externo, Jaime, acima de tudo, é um cavaleiro e um amante. Amante eternamente apaixonado pela única mulher que jamais possuiu. Cersei.


O Cavaleiro

A identidade de exímio cavaleiro é o que o torna homem. Jaime não se escora simplesmente na riqueza de sua família e em seu berço dourado, não se enxerga apenas como reflexo de uma quantidade de ouro que parece infinita, mas constrói para si a imagem que lhe confere sentido, e que o torna quase imbatível em uma disputa com espadas.


E todo esse significado cai por terra quando, ajoelhado e desprovido de dignidade, tem sua mão direita, a mão da espada, decepada. E é quando começa a questionar a própria existência, ainda que encontre alento no pensamento de que sua irmã o espera em Porto Real.


O Amante

Jaime é Cersei, ou pelo menos a projeção de seus anseios diante de uma sociedade medieval e patriarcal que a poda em suas ambições, definindo por ela que papel representar. Mesmo que Jaime encontre alguma individualidade, sua personalidade, seu comportamento e suas ações são uma extensão dos desejos e caprichos da irmã.


Quando sua mão é decepada, Jaime perde muito mais, perde metade de quem ele é, tal qual Medardo di Terralba em O Visconde Partido ao Meio, mas aqui apenas uma metade sobrevive. Entretanto, quando retorna a Porto Real e para a sua amada, a recepção não é tão calorosa. Cersei recebe apenas o Amante, o cavaleiro não está mais presente.


Defrontado com o desdém e desprezo da única mulher que já amou, e atormentado com a ideia de sua infidelidade (o casamento e sexo com Robert Baratheon, o rei falecido, era entendido apenas como dever e protocolo), morre também a metade que restava e que compunha o que ele era.


E aí?

A partir do meio do terceiro livro começamos a conhecer um Jaime Lannister diferente, já menos susceptível à influência da irmã e, ainda que mutilado de sua identidade de cavaleiro, muito mais forte, capaz de desafiar o pai e não se render a seus ditames.

No quarto e quinto livros este novo Jaime parece não demandar aprovação da irmã e age muito mais em função da resolução dos conflitos, tanto internos, quanto políticos e bélicos, e surpreende ao abandonar sua outrora atitude impulsiva e infantil. Resta saber o que George R. R. Martin tem mente para o desenrolar do arco do personagem. 

* Todos os trechos foram retirados do livro A Tormenta de Espadas

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