domingo, 7 de agosto de 2016

Duas Histórias Bizarras

Recentemente eu e um amigo, o Leandro, tivemos a ideia de fazer uma competição de histórias entre nós. Ambos escrevemos nossas histórias desde a infância e as comparamos, ou simplesmente mostramos um pro outro. Então a ideia de uma minicompetição pareceu divertida. Inclusive demos um nome: “Competição Shyamalan”. A temática para a primeira rodada ficou definida como “a história mais bizarra”. A única regra é que deveria ter pelo menos uma página de caderno, aproximadamente, e só. Então já antecipo que não tivemos qualquer preocupação com a forma, ou com a escrita, e que o objetivo foi apenas apresentar a história mais bizarra.

Como dizem por aí, o que sai num único jorro de inspiração é urina e fezes, mas não estamos nem aí, tanto o Leandro como eu escrevemos de uma só vez, após alguns dias pensando no que seria colocado no papel. No caso dele, a história foi baseada num sonho perturbador, já no meu, em alguns casos como o do Phineas Gage. Então, a seguir, a minha história: Clarice. E logo depois, a do Leandro: Doppelgänger.



Michael Shapcott
Clarice

Quando Clarice foi diagnosticada com câncer em área pré-frontal do cérebro, no alto de seus 29 anos, seu noivo, Garcia, um jovem médico, chegou a pensar que talvez fosse o fim. Ainda assim, e sabendo dos riscos, inclusive de morte, manteve-se firme e estimulando-a a aceitar o tratamento quimioterápico e cirúrgico, uma vez que a equipe médica dizia que havia a possibilidade de ressecção do tumor.

Garcia teve grande dificuldade em enfrentar todo o processo, até também porque há poucos anos havia passado pelo falecimento de sua mãe, também vítima de câncer, e era no mínimo trágico ver sua mulher viver todo esse sofrimento também, ela que, aliás, o ajudara a passar pelo luto.


E já não bastasse todas as vicissitudes, durante o transcorrer de toda a crise pairava em sua mente um temor secreto. Debruçando-se sobre os livros, tomou conhecimento de algumas sequelas possíveis advindas de intervenções cirúrgicas na região pré-frontal do encéfalo. Descobriu o famoso caso de Phineas Gage e muitos outros. Alguns recentes, inclusive decorrentes de lesões ocasionadas por tumores e cirurgias. O caso é que algumas pessoas, após sofrerem acidentes ou passarem por cirurgia nesta região do cérebro, passam a apresentar alterações comportamentais e, principalmente, afetivas. Sintomas negativos como redução ou mesmo ausência de sensibilidade e empatia. Portanto, temia que sua futura esposa, caso sobrevivesse a tamanho sofrimento, fosse também vítima de tais alterações afetivas.
 

Cirurgia bem sucedida, seus temores caíram por terra. Após um ano Clarice já havia voltado a trabalhar e para a sua vida habitual. E sua mulher não só não se tornou insensível, como ficou mais carinhosa, empática e solidária, ao que todos atribuíram à experiência de quase morte e amadurecimento.

Mais tarde, para o sofrimento do agora já marido, sua mulher passou a ser atormentada por distúrbios aparentemente emocionais. Perdia o sono, acordava aos berros, chorava sem motivo aparente. Logo veio o diagnóstico: depressão. "Foi o trauma da doença, vai passar", diziam os familiares. Mas a verdade é que não passou, só piorou, e à medida que piorava sua mulher também se isolava, até o fatídico dia em que se suicidou. "Seu pai também se suicidou. Sofreu muito, tadinha" disseram novamente os familiares.


Nada, jamais, pôde preencher o vazio que tomou conta do coração do viúvo.

Os Segredos de Clarice

Clarice, desde a mais tenra infância, sempre teve grande dificuldade em entender as emoções alheias. Entendia sim com bastante clareza que as suas emoções, pelo contrário, eram muito mais simples, e enxergava tais sentimentos, quando mais exacerbados, como fragilidades.

No início de sua adolescência, por volta dos 13 anos, as pessoas, para Clarice, se configuravam como painéis com botões a serem apertados. Alguns botões lhe davam a atenção que queria, outros traziam pequenos mimos, e alguns satisfaziam seus desejos.

Quando sua mãe teve o segundo filho, por alguma razão que a princípio não compreendia, os botões da mãe já não funcionavam tão bem, até que concluiu que a causa era o menino. E um dia foi que, à noite, colocou sua mão sobre a boca do bebê e esperou que o mesmo parasse de se mexer, e mesmo após o cessar dos movimentos, manteve a mão, como que orgulhosa do feito. Quando seu pai a surpreendeu, ainda com a mão sobre a boca da criança, Clarice lhe disse que ouviu um choro e correu para ver o que era. E como não conseguira fazê-lo se mover, colocou a mão sobre sua boca para ver se respirava. Ao médico, o pai disse que a filha o encontrou inconsciente.

Mais tarde Clarice também mataria o cachorro de seu primeiro namorado, colocando-lhe um saco na cabeça, e depois a mãe de seu noivo, da mesma forma que matara o irmão.  
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Charlotte Estelle Littlehales
Doppelgänger
- Julinho... O almoço tá pronto, vem logo.
O pequeno menino de 7 anos brincava na porta de seu quarto, montando um jogo de peças. Ao ouvir a voz de sua mãe, prontamente respondeu.
- Tô indo!
Passou pela sala de estar, desviando de alguns brinquedos espalhados pelo chão, e entrou na cozinha  incrivelmente branca e clara. Sua mãe, de costas, virou instantaneamente quando ele surgiu à porta e lhe deu um olhar carinhoso, apesar de repreendedor. Ele dificilmente vinha na primeira chamada.
Após o almoço, sua mãe se despediu como sempre. Júlio mal prestou atenção, seu primo André já chegara e brincava com ele na sala.
Algumas horas depois, Júlio, ainda brincando com André, mal se lembrava se sua mãe havia saído ou não; ela tinha folgas regulares em alguns dias da semana. Por isso ele não estranhou quando ouviu a voz dela vindo da cozinha:  - Julinho... Vem ajudar a mamãe aqui. 
Júlio se levantou, e ao começar a andar, parou. Sua mãe não havia saído? A lembrança era vaga, mas ele se lembrava de a ver saindo pela porta. Ou não?
Parado no canto da sala, finalmente lembrou. Ela havia ficado em casa ontem. Hoje não era sua folga. E definitivamente ele a viu sair. Ela teria voltado sem avisar e sem que ele percebesse? Não era possível.
Uma sensação de apreensão se apoderou dele.- Vem, Julinho. 
Era mesmo a voz de sua mãe. Como ela estava lá e ele não tinha percebido? Estaria tão distraído assim? 
Começou a andar em direção à cozinha e finalmente chegou a sua porta aberta. Olhou para o interior branco e claro dela e viu. 
Ao lado da pia, agachado, uma criatura magra e negra como carvão, deformada como se tivesse queimada, o encarava, sorrindo de maneira maligna e zombeteira, enquanto a voz de sua mãe era ouvida saindo da boca da figura.
- Vem, Julinho, vem pra cá...
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